Chapter XV: Conclusion (2)
[107] _Poemas Lusitanos_ is a title which in the sixteenth century no Portuguese poet except Ferreira would have applied to his writings. The word _Poema_ has never been received into the language of common life in Portugal.
[108] Manuel de Faria y Sousa in his preface to the 4th vol. of the _Fuente de Aganippe_, alluding to Ferreira’s eclogues, says, they are written _con perdurable dureza y poca dicha en pensamientos y afectos_ (with tedious frigidity and but little happiness of thought and sentiment.) As far as regards the eclogues, this observation is not altogether erroneous; but in general Faria y Sousa was by no means competent to pronounce an opinion on Ferreira’s works. See History of Spanish Literature, p. 428.
[109]
A primeira ley minha he, que de mim
Primeiro me guarde eu, e a mim naõ crea,
Nem os que levemente se me rim;
Conheça-me a mim mesmo: figa a vea
Natural, naõ forçada: o juizo quero
De quem com juizo, e sem paixaõ me lea.
Na boa imitaçaõ, e uso, que o féro
Ingenho abranda, ao inculto dá arte,
No conselho do amigo douto espero.
_Das Cartas Livr. I. Carta 12._
[110] For instance the following:--
Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome d’amor, doce, e suave,
A terra, o mar, vento, agoa, flor, folha, ave
Ao brando som s’alegra, move, e abranda.
Nem nuvem cobre o Ceo, nam na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave.
Nova cor toma o Sol, ou se erga, ou lave
No claro Tejo e nova luz nos manda.
Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo Mundo parece que renova,
Nem ha triste planeta, ou dura sorte.
A minh’ alma sò chora, e se entristece.
Maravilha d’Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.
[111] One sonnet commences with an association of ideas of this fantastic kind:--
Quem vio neve queimar? Quem vio tam frio
Hum fogo, de que eu arço? &c.
[112] These sonnets please, by the beauty of expression, even when the thoughts are unimportant, for instance:--
Nimphas do claro Almonda, em cujo seo
Nasceo, e se eriou a alma divina,
Qu’ hun tempo andou dos Ceos ea peregrina,
Ja lá tornou mais rica, do que veo;
Maria, da virtude firme esteo,
Alma sancta, Real, de imperio dina
A baiyeza deixou, de qu’ era indina,
Ficou sem ella o Mundo escuro, e feo.
Nimphas, que tam pouco ha qu’ os bõs amores
Nossos cantastes cheas de alegria,
Chorai a vossa perda, e minha mágoa.
Naõ se cante entre vós jà, nem se ria,
Nem dè o monte herva, nem o prado flores,
Nem dessa fonte mais corra clara agoa.
[113] An imitation of the _Odi profanum vulgus_ forms also the overture to Ferreira’s odes. His first ode commences thus:--
Fuja daqui o odioso
Profano vulgo! Eu canto
A brandas Musas, a huns spritos dados
Dos Ceos ao novo canto
Heroico; &c.
[114] In an ode _A os principes D. Joaõ e a D. Joana_, every stanza commences with the following pompous words:--
Vivey felices, pios, vencedores!
[115] As for instance in the following passage:--
Naõ teme, naõ espera,
Naõ pende da fortuna, ou vaõs cuidados
A consciencia pura
E assi naõ desespera
De chegar aos bons dias esperados
Tam léda, et tam segura,
Que o Mundo desprezando
Consigo se enriquece, e mais descansa
De si tam satisfeita,
Que em si se está prezando
De desprezar o porque o Mundo cansa.
De ver que ella a direita
Via seguindo vay
A virtude levandosó por guia.
Naõ torce, naõ duvida,
Já mais della se fay,
Por mais qu’ o Mundo della se desvia.
[116] See the History of Spanish Literature, p. 240.
[117] The following stanzas, which form the commencement of an ode to Spring, will afford an idea of Ferreira’s descriptive talent.
Eis nos torna a nascer o anno fermoso,
Zefiro brando, e doce Primavera.
Eis o campo cheiroso:
Eis cinge o verde Louro já a nova Hera.
Ja do ar caydo géra
O cristalino orvalho hervas, e flores.
As Graças, e os Amores
Coroados de alegria
Em doce companhia
De Nimphas, e Pastores ao som brando
Doces versos de Amor vaõ revezando.
Apôs a branda Deosa do terceiro
Ceo, que triumphando vay de Apollo, e Marte.
E entre elles o frexeiro
O seu doce fogo, onde quer, reparte.
Fogem de toda parte
Nuvens; a neve ao Sol té entaõ dura
Se converte em brandura,
E d’alta, o fria serra
Cayndo, rega a terra
Agoa já clara: a cujo som adormece
Toda féra serpente, é o Myrtho cresce.
[118] This elegy, which is here transcribed at length, is calculated to banish every doubt respecting Ferreira’s poetic genius:--
Vem Mayo de mil hervas, de mil flores
As frontes coroado, e riso, e canto,
Com Venus, com Cupido, cos Amores,
Vença o prazer á dor, o riso ao pranto
Vase longe daqui cuidado duro,
Em quanto o lédo mez de Venus canto.
Eis mais alva a menham, mais claro, e puro
Do Sol o rayo: eis correm mais fermosas
Nuvens afugentando o ar grosso e escuro.
Sae a branda Diana entre as lumiosas
Estrellas tal, qual já ao pastor fermoso
Veo pagar mil horas saudosas.
Mar brando, sereno ar, campo cheiroso,
Foge a Tristeza, o Prazer folto voa,
O dia mais dourado, e vagaroso.
Tecendo as Graças vaõ nova coroa
De Myrtho á mãy, ao filho mil Spritos.
O fogo resplandece, a aljaba soa.
Mil versos, e mil vozes, e mil gritos
Todos de doce amor, e de brandura,
Huns s’ouvem, huns nos troncos ficam escritos.
Ali soberba vem a Fermosura,
Apôs ella a Affeiçaõ cega, e cativa.
Quanto huma mais chorosa, outra mais dura.
Ah manda Amor assi: assi quer que viva
Contente a triste, do que seu Deos manda,
De seja inda mais dor, pena mais viva.
Mas quanto o moço encruece, a mãy abranda,
Ella a peçonha, e o fogo lhe tempéra:
Assi senhora de mil almas anda.
Ali o Engano em seu mal cego espera
Hum’ hora doce: ali o Encolhimento
Sem causa de si mesmo desespera.
Aos olhos vem atádo a Pensamento,
Naõ voa a mais qu’ao qu’ali tem presente,
E em tanto mal, tudo he contentamento.
E riso, em festa corre a léda gente,
Tras o fermoso fogo, em que sempr’arde,
Cada hum, quanto mais arde, mais contente.
Manda Venus ao Sol menham, e tarde
Que seus crespos cabellos loure, e estenda,
Qu’em vir s’apresse, qu’em se tornar tarde.
Ao brando Norte, que assopre, e defenda
Do ardor da sesta a branda companhia,
Em quanto alçam de Myrtho fresca tenda,
Corre por toda parte clara, e fria
Agoa: cae doce sombra do alto Louro,
Canta toda ave canto d’alegria.
Ella a neve descobre, e solta o ouro:
Banham-na as Graças na mais clara fonte;
Aparece d’Amor rico thesouro.
Caem mil flores da dourada fronte,
Arde d’Amor o bosque, arda a altra serra,
Aos olhos reverdece o campo, e o monte.
Despende Amor seus tiros, nenhum erra,
Mil de baixo metal, algum do fino,
Fica de seus despojos chea a terra.
Vencida d’huma molher, e d’hum minino.
[119] The didactic epistolary character appears in the following passage, from the elegy on _Luis Fernandez de Vasconcellos_, which is, in other respects, exceedingly beautiful:--
Naõ frias sombras, naõ os brandos leitos
Altos spritos provam: que ociosos
Se gastam, e como em cinza estaõ desfeitos.
Melhor comprados foram, mais custosos
Aquelles nomes altos, que inda soam,
Dos que virtude, e esforço fez famosos.
Inda entre nós de boca em boca voam
De tanto tempo já os spritos puros:
Inda de verdes folhas se coroam.
Por duras armas, por trabalhos duros
Varios costumes, varias gentes vendo
Tornáram inda erguer fermosos muros.
Hora a furia do bravo mar rompendo,
Hora os lançava a sorte á praya imiga
Quanto móres perigos, mais vencendo.
[120] See History of Spanish Literature, page 392.
[121]
O nosso bom _Joam_ tambem guiado
De seu sprito, viva em ti seguro,
E nos mais, de quem he bem conselhado.
Abrasan-se castellos, cae o muro
Cansam forças, e braços, e ardidezas.
No bom conselho só está o bom seguro.
Do saber saõ as boas fortalezas.
Escolhan-se bons zelos, bons spritos,
Mais no Mundo soarám nossas grandezas.
Aquelles claros feitos, altos ditos,
De que os livros saõ cheos, desprezemos.
Mores feitos ha cá, naõ taõ bem escritos.
_Vençamos no melhor, o outro imitemos._
_Livr. I. Cart. 2._
[122]
Cuida melhor que quanto mais honraste,
E em mais tiveste essa lingua estrangeira,
Tanto a esta tua ingrato te mostraste.
Volve, pois volve, Andrade, da carreira,
Que errada levas (com tua paz o digo).
Alcançarás tua gloria verdadeira.
Te quando contra nós, contra ti imigo
Te mostrarás? obrigue-te a razaõ,
Que eu, como posso, a tua sombra sigo.
As mesmas Musas mal te julgaraõ,
Serás em odio a nós teus naturais,
Pois, cruel, nos roubas o que em ti nos daõ.
_Livr. I. Cart. 3._
[123] For example:--
O bem sempre por mal, o mal por bem,
Por virtude o mor vicio, e por prudencia
O que menos o he, seguem, e crem.
Ao vaõ prodigo dam magnificencia,
Chamam o deshonesto, homem de damas,
E louvam, e ham iveja a incontinencia.
Aquelle, que tu bom, e prudente chamas,
Que lança suas contas bem lançadas,
E seu pouco falar, bom e raro amas,
Frio, e malecioso; e o de danadas
Entranhas, que c’um riso prazenteiro
Encobre suas peçonhas simuladas,
He só prudente, e canto: falso arteiro
O que conhece bem, e sabe facer
Differença do amigo ao lisongeiro.
_Livr. I. Carta 5._
[124] As in the following lines:--
Apareça a Rezaõ fermosos e bella,
Criada em nossos peitos! Ah, que amores
Nos nasceram tam vivos logo dellos!
Cairan os perigos e os temores,
O campo livre, o ceo claro e sereno
Veremos sem trabalhos e sem dores.
_Livr. I. Carta 7._
[125] For instance in an epistle to Andrade Caminha, which begins in the following manner:--
Deste meu peito saõ em teu saõ peito
Candidissimo Andrade, vaõ seguras
Minhas palavras chãs, meu nú conceito.
Ivos daqui fingidas, ivos duras
Linguas e condiçoes: pura clareza
Saya de claros peitos, e almas puras.
Riome, bom amigo, da estreiteza
D’alguns curtos amigos, e da ousada
D’outros livres errada, e vam largueza.
Seja a amizade facil, confiada
Doce, aprazivel, branda; mas honesta,
Mas de sam liberdade acompanhada.
[126] This is exemplified in the epistle to his tutor Diogo de Teive. It commences thus:--
Prometti-te, meu Teive, á tua partida
Mil prosas, e mil versos; e em mil mezes
Huma carta té outra teras lida.
Naõ sohiam mentir os Portuguezes.
Entrou novo costume, e he ley antiga
Romano en Roma, Francez cos Francezes.
Quem queres que por força cá naõ siga
A ley de terra? e mais tam bem guardada
Dos que em mal nosso tem a fortuna amiga?
Seja com tanto honrado desculpada
Minha mentira: a sam nossa amizade
Nunca esquecida foy, nunca mudada.
Mas entaõ chea, em tam grã Cidade,
Onde o sprito e a vista leva a gente,
Quem póde ser senhor da sua vontade?
Mora hum lá fóra alem do grã Vicente,
Outro cá na Esperanças e ey de vér ambos,
Foge inda o dia ao muito diligente.
Pelas ruas mil cambos, mil recambos,
Cargas vem, cargas vaõ, mil mós, mil traves,
Hum arranca, outra foge, e encontro entrãbos.
_Livr. II. Carta 8._
[127] The following is one of the best.
Forjava em Lemno com destreza e arte
Setas a Amor de Venus o marido:
A branda Venus lhe poem mel d’huma parte,
Mas d’outra parte lhe poem fel Cupido.
Entrou brandindo o grossa lança Marte,
Rio-se das setas. Queres ser ferido
D’huma? (Amor diz) próva hora se te praz.
Ferio-o; rio-se Venus: Marte jaz.
[128]
Foy o cruel Pagaõ e monstruoso
(Segundo aquellos gentes fama daõ)
Grande, membrado, _e como usso velloso_,
_E huma orelha de Asno, outra de caõ_.
[129] See History of Spanish Literature, p. 296.
[130] The following are the two first stanzas:--
Quando Amor nasceo,
Nasceo ao Mundo vida,
Claros rayos ao Sol, luz ás estrellas.
O Ceo resplandeceo,
E de sua luz vencida
A escuridaõ mostrou as cousas bellas.
Aquella, que subida
Está na terceira esphéra,
Do bravo mar nascida
Amor ao Mundo dá, doce amor géra.
Por amor s’orna a terra
D’agoas, e de verdura,
As arvores dá folhas, cor ás flores.
Em doce paz a guerra,
A dureza em brandura.
E mil odios converte em mil amores.
Quantas vidas a dura
Morte desfaz, renova:
A fermosa pintura
Do Mundo, Amor a tem inteira, e nova.
[131] A passage from this scene may be transcribed here:--
_Rey._ Tristes foram teus fados, Dona Ines,
Triste ventura a tua.
_Cast._ Antes ditosa
Senhor, pois que me vejo antes teus olhos
Em tempo tam estreito: poem-nos hora,
Como nos outros soes, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, Senhor, matar? porque me matas?
_Rey._ Teus peccados te matam: cuida nelles.
_Cast._ Peccados meus! ao menas contra ti
Nenhum, meu Rey, me accusa. Contra Deos
Me podem accusar muitos: mas elle ouve
As vozes d’alma triste, em que lhe pede
Piedade. O Deos justo, Deos benigno,
Que naõ mata, podendo com justiça,
Mas dá tempo de vida, e espera tempo
Só pero perdoar: assi o fazes,
Assi o fizeste sempre: pois naõ mudes
Agora contra mim teu bom costuma.
_Act IV._
[132]
N’huma maõ livros, n’outra ferro e aço,
N’huma maõ sempre a espada, n’outra a pena, &c.
[133] The allusion to this event occurs in the tenth canto of the Lusiad, in which the goddess Thetis from the summit of a hill, points out to Vasco de Gama the theatre of the future conquests of the Portuguese. Thetis says, pointing to the coast of Camboya, but without naming Camoens:--
Este recevera placido e brando
No seu regaço os Cantos, que molhados
Vem de naufragia triste e miserando,
Dos procellosos baixos escapados.
[134] Barbosa Machado, in his dictionary says of Camoens:--
Salvou se em huma taboa com o seu divino poema, imitando a Julio Cesar, que no porto de Alexandria em huma maõ levava la espada e em a outra os seus commentarios.
In order to render the miracle perfect in analogy, Dieze in his appendix to Velasquez, has applied to Camoens these last words in which Machado refers exclusively to Cæsar. Inadvertencies of this sort must be expected occasionally to occur in the history of literature.
[135] The original source whence these biographic notices are derived is, it must be admitted, somewhat obscure. About the middle of the seventeenth century, a writer named Manoel Severim de Faria compiled a biographical account of Camoens from the poet’s own works. This biography served as a ground work for Manoel de Faria e Sousa, who annexed a _Vida del Poeta_ to his edition of Camoens and his commentaries on the Lusiad. The facts thus collected were afterwards rectified and arranged by subsequent writers, and among others by Barbosa Machado. Manoel de Faria attaches particular importance to the noble extraction and armorial bearings of Camoens. He gives the passage from the letter which the poet is said to have written on the approach of death, and which Barbosa Machado has re-printed. The words are:--
Quem houvio dizer nunca, que em tam pequeno theatro, como o de hum pobre leito, quisisse Fortuna representar tam grande desventura?
And again:--
Procurar resistir a tantos males, pareceria especie de desavergonhamento.
[136] The first edition of the Lusiad was printed in the year 1572, and the poem itself was chiefly written in the East Indies. Tasso read it, and praised the author in a sonnet which has been preserved. The first edition of Jerusalem Delivered appeared in 1580, and consequently, a year after the death of Camoens. (See the History of Italian Poetry and Eloquence, vol. ii. p. 226.)
[137] Even the apology for Camoens which precedes Mickle’s version of the Lusiad, defeats itself, for the English translator makes the Homeric epic his standard, and in order to justify the Lusiad misconstrues the machinery of the Iliad. The remarks on the Lusiad by Voltaire, in his _Discours sur le poème épique_ are beneath criticism; and the judgment pronounced on this poem by Von Junk in the introduction to his Portuguese grammar, evinces a total want of poetic taste. No one should attempt a translation of the Lusiad, who does not possess an intimate acquaintance with the Portuguese language and poetry, for it is otherwise impossible to seize the spirit of Camoens. The English translation by Mickle is hitherto the only one in which it can be said that at least the elegant dignity of Camoens’s style is represented.
[138] See the History of Spanish Literature, p. 408.
[139] The edition with the commentaries of Faria e Sousa published in the year 1636, has the old title of _Lusiadas_; but in the book itself the poem is frequently styled the _Lusiada_. The latter title is, therefore, far from being a recent innovation.
[140] Camoens was no doubt influenced by the recollection of Virgil’s _Arma virumque_. But in his opening stanza the Portuguese poet alludes to the heroes of his native country, without distinguishing any one in particular; and thus at the very outset the Lusiad differs from the Æneid. The second stanza resembles Ariosto. The two first stanzas are here subjoined in the original:--
As Armas, e os Barões assinalados,
Que da Occidental praia Lusitana,
Por mares nunca d’antes navegados,
Passáram ainda além da Taprobana:
Que em perigos e guerras esforçados,
Mais do que promettia a força humana.
Entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimáram:
E tambem as memorias gloriosas
Daquelles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Imperio; e as terras viciosas
De Africa, e de Asia, andaram devastando:
E aquelles que por obras valerosas
Se vaõ da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho, e arte.
[141]
Jà no largo Oceano navegavam
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das náos as vélas concavas inchando:
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vaõ cortando
As maritimas aguas consagradas,
Que do gado de Prótheo saõ cortadas.
Quando os deoses no Olympo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em concilio glorioso
Sobre as cousas futuras do Oriente:
Pizando o crystallino Ceo formoso
Vem pela Via Lactea juntamente,
Convocados da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.
[142] Thus, for example, the stormy commotion in the council of the Gods is compared to the ragings and howlings of a whirlwind in the forest:--
Qual Austro fero ou Boreas na espessura,
De sylvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vaõ da mata escura,
Com impeto, e braveza desmedida:
Brama toda a montanha, o som murmura,
Rompem se as folhas, ferve a serra erguida;
Tal andava o tumulto levantado,
Entre os deoses no Olympo consagrado.
_Cant. I._ 36.
[143]
Vasco da Gama, o forte capitaõ,
Que a tamanhas emprezas se offerece,
De soberbo e de altivo coraçaõ,
A quem Fortuna sempre favorece.
[144] For example:--
Comendo alegremente perguntavam,
Pela Arabica lingua, donde vinham;
Quem eram, de que terra: que buscavam;
On que partes do mar corrido tinham.
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas respostas que convinham:
Os Portuguezes somos do Occidente;
Imos buscando as terras do Oriente.
_Cant. I._ 50.
[145] For example in the following description, which is in other respects excellent:--
Andam pela ribeira, alva, arenosa,
Os bellicosos Mouros acenando,
Com a adarga, e co’a hastea perigosa,
Os fortes Portuguezes incitando.
Naõ soffre muito a gente generosa
Andarlh’os cães os dentes amostrando:
_Qualquer em terra salta, taõ ligeiro,
Que nenhum dizer póde que he primeiro._
Qual no corro sanguino o ledo amante,
Vendo a formosa dama desejada,
O touro busca, e pondo-se diante,
Salta, corre, sibila, acena, e brada;
Mas o animal atroce nesse instante,
Com a fronte cornigera inclinada,
Bramando duro corre, e os olhos cerra,
Derriba, fere, mata, e põe por terra.
A comparison such as this, which, it must be recollected is perfectly national, atones for many faults.
[146]
Mostrandose Christaõ, e fabricava
Hum altar sumptuoso, que adorava.
Alli tinha em retrato affigurada
Do alto e Sancto Espiritu a pintura,
A candida Pombinha debuxada
Sobre a unica Phenis, Virgem pura, &c.
[147] The following stanzas are part of the description of the ascent of Venus to heaven, and her appearance before the throne of Jupiter.
Ouvio-lhe estas palavras piedosas
A formosa Dióne, e commovida,
De entre as Nymphas se vai, que saudosas
Ficáram desta subita partida.
Já penetra as estrellas luminosas;
Já na terceita Esphera recebida
Avante passa; e lá no sexto Ceo
Par onde estava o Padre se moveo.
* * * * *
E por mais mormorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada, e chara,
Se lhe apresenta asi como ao Troiano
Na selva Idea já se apresentára.
Se a víra o caçador, que o vulto humano
Perdeo, vendo a Diana na agua clara,
Nunca os famintos galgos o matáram;
Que primeiro desejos o acabáram.
O crespos fios de ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lacteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava, e naõ se via.
* * * * *
_Canto II._
[148] One of the stanzas commences as follows:--
Eis aqui se descobre a nobre Hespanha,
Como cabeça alli de Europa toda;
And another runs thus:--
Eis aqui como cume da cabeça
De Europa toda o Reino Lusitano.
[149] Cant. III. Estancia 35:--
Is this Egaz, or Egas Moniz, the same individual who is celebrated as one of the earliest Portuguese poets? See p. 5.
[150] In these descriptions the poet invariably seizes every favourable opportunity of introducing picturesque comparisons. Similies are indeed crowded together as closely as in the battle pictures of the Iliad; for example:--
Qual co’os gritos e voces incitado,
Pela montanha o rabido moloso,
Contra o touro remette, que fiado
Na força está do corno temeroso.
Ora pega na orelha, ora no lado,
Latindo mais ligeiro que forçoso.
Até que em fim rompendo lhe a garganta,
Do bravo a força horrenda se quebranta:
Tal do Rei novo o estomago accendido,
Por Deos, e pelo povo juntamente,
O barbaro comette apercebido,
Co’o animoso exército rompente.
Levantam nisto os perros o alarido
Dos gritos; tocam arma, ferve a gente:
As lanças e arcos tomam; tubas sôam;
Instrumentos de guerra tudo astrôam.
Bem como quando a flamma, que ateada
Foi nos áridos campos (assoprando
O sibilante Boreas) animada
Co’o vento o secco mato vai queimando.
A pastoral companha, que deitada
Co’o doce somno estava, despertando
Ao estridor do fogo, que se atêa,
Recolhe o fato, e foge para a aldêa:
Desta arte o Mouro attonito e torvado,
Toma sem tento as armas mui depressa;
Naõ foge, mas espera confiado,
E o ginete belligero arremessa.
O Portuguez o encontra denodado,
Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
Huns cahem meios mortos, e outros vaõ
A ajuda convocando de Alcoraõ.
_Canto III._ 47.
[151] This description commences as follows:--
Entrava a formosissima Maria
Pelos paternaes paços sublimados;
Lindo o gesto, mas fóra de alegria,
E seus olhos em lagrimas banhados:
Os cabellos angelicos trazia
Pelos eburneos hombros espalhados:
Diante do pai lédo, que a agasalha,
Estas palavras taes chorando espalha.
Quantos povos a terra próduizio
De Africa toda, gente fera, e estranha,
O graõ Rei de Marrocos conduzio,
Para vir possuir a nobre Hespanha.
Poder tamanho junto naõ se vio,
Despois que o falso mar a terra banha.
Trazem ferocidade, e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.
Aquelle que me déste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co’o pequeno poder offerecido
Ao duro golpe está da Maura espada,
E se naõ for comtigo soccorrido,
Vêr-me-has delle, e do Reino ser privada:
Viuva, e triste, e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino, e sem ventura.
_Cant. III._ 102. _etc._
[152] The first stanzas on the introduction of Inez or Ignez (for the Portuguese orthography adopts the latter form of the name) are not to be surpassed.
Estavas, linda Ignez, posta em socego,
De teus annos colhendo doce fruto,
Naquelle engano da alma, lédo, e cego,
Que a fortuna naõ deixa durar muto;
Nos saudos campos do Mondego,
De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montos ensinando, e ás hervinhas,
O nome que no peito escripto tinhas.
Do teu Principe alli te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam;
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus formosos se apartavam;
De noite em doces sonhos que mentiam,
De dia em pensamentos que voavam;
E quanto em fim cuidava, e quanto via,
Eram tudo memorias de alegria.
Among the succeeding stanzas it is difficult to make an election; and as the specimens introduced in this work are intended to form a collection for literary study, it is still more difficult to resist the temptation of transcribing the whole episode. At all events the following six stanzas must find a place:--
Traziam-na os horrificos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade,
Mas o povo com falsas e ferozes
Razões à morte crua o persuade.
Ella com tristes e piedosas vozes,
Sahidas só da mágoa, e saudade
Do seu principe, e filhos, que deixava,
Que mais que a propria morte a magoava:
Para o Ceo crystallino alevantando
Com lagrimas os olhos piedosos;
Os olhos, porque as maõs lhe estava atando
Hum dos duros ministros rigorosos:
E despois nos meninos attentando,
Que taõ queridos tinha, e taõ mimosos,
Cuja orphandade como mãi temia,
Para o avô cruel assi dizia:
Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que sómente
Nas rapinas aerias tem o intento,
Com pequenas crianças vio a gente,
Terem taõ piedoso sentimento,
Como co’a mãi de Nino já mostráram,
E co’os irmaõs que Roma edificáram:
O’tu, que tens de humano gesto, e o peito,
(Se de humano he matar huma donzella
Fraca, e sem força, só por ter sujeito
O coraçaõ a quem soube vencella)
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o naõ tens à morte escura della:
Mova-te a piedade sua, e minha,
Pois te naõ move a culpa que naõ tinha.
E se vencendo a Maura resistencia
A morte sabes dar com fogo, e ferro;
Sabe tambem dar vida com clemencia
A quem para perdê-la naõ fez erro.
Mas se to assi merece esta innocencia,
Poem-me em perpétuo e misero desterro,
Na Scythia fria, ou lá na Libya ardente,
Onde em lagrimas viva eternamente.
Poem-me onde se use toda a feridade;
Entre leões, e tigres, e verei
Se nelles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos naõ achei,
Alli co’o amor intrinseco, e vontade,
Naquelle por quem mouro, criarei
Estas reliquias suas que aqui viste,
Que refrigerio sejam da mãi triste, _etc._
_Canto III._
[153] The description of this battle, and the account of the internal agitations of the kingdom, which preceded it, occupy a great portion of the fourth canto.
[154] Here again the poet displays his command of beautiful imagery. The following passage resembles the retreat of Ajax in the Iliad.
Rompem-se aqui dos nossos os primeiros;
Tantos dos inimigos a elles vaõ:
Está alli Nuno, qual pelos outeiros
De Ceita está o fortissimo leaõ,
Que cercado se vê dos Cavalleiros,
Que os campos vaõ correr de Tetuaõ:
Perseguem-no co’as lanças, e elle iroso,
Torvado hum pouca está, mas naõ medroso.
Com torva vista os vê, mas a natura
Ferina, e a ira, naõ lhe compadecem
Que as costas dê, mas antes na espessura
Das lanças se arremessa, que recrecem.
Tal está o Cavalleiro, que a verdura
Tinge co’o sangue alheio: alli perecem
Alguns dos seus. Que o animo valente
Perde a virtude contra tanta gente.
_Canto IV._ 134. _etc._
[155] The description of the battle commences in the following brilliant style:--
Deo signal a trombeta Castelhana
Horrendo, fero, ingente, e temeroso:
Ouvio-o monte Artabro; e Guadiana
Atraz tornou as ondas de medroso:
Ouvio-o o Douro, e a terra Transtagana;
Correo ao mar o Tejo duvidoso;
E as mãis que o som terribil escuitáram,
Aos peitos os filhinhos apertáram.
Quantos rostos alli se vem sem côr,
Que ao coraçaõ acode o sangue amigo;
Que nos perigos grandes, o temor
He maior muitas vezes que o perigo:
E se o naõ he, parece-o; que o furor
De offender, ou vencer o douro imigo,
Faz naõ sentir que he perda grande, e rará,
Dos membros corporaes, da vida chara.
Começa-se a travar a incerta guerra;
De ambas partes se move a primeira ala;
Huus levam a defensão da propria terra,
Outros as esperanças de ganhala:
Logo o grande Pereira, em quem se encerra
Todo o valor, primeiro se assinala;
Derriba, e encontra, e a terra em fim semêa
Dos que a tanto desejam, sendo alhêa.
Já pelo espesso ar os estridentes
Farpoens, settas, e varios tiros vôam:
Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavallos, treme a terra, os valles sôam:
Espedaçam-se as lanças; e as frequentes
Quêdas co’as duras armas tudo atrôam:
Recrescem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.
_Cant. IV._ 28. _&c._
[156] Canto IV. Estancia 69, &c.
[157] Canto IV. est. 90, &c.
[158] The old man exclaims:--
Oh gloria de mandar! Oh vaã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos fama!
Oh fraudulento gusto, que se atiça
Co’ huma aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho, e que justiça
Faces no peito vaõ que muito te ama!
Que mortes! Que perigos! Que tormentas!
Que crueldades nelles exprimentas!
Dura inquietaçaõ da alma, e da vida;
Fonte de desamparos, e adulterios;
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de Reinos, e de Imperios,
Chamam-te illustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vituperios:
Chamam-te fama, e gloria soberana;
Nomes com quem se o povo nescio engana.
_Cant. IV._ 95.
[159] This passage is one of the most celebrated in the Lusiad. It commences with the following stanzas:--
Naõ acabava, quando huma figura
Se nos mostra no ar, robusta, e válida;
De disforme e grandissima estatura,
O rosto carregado, a barba esquálida:
Os olhos encovados, e a postura
Medonha, e má, e o cor terrena, e pálida,
Cheos de terra, e crespos os cabellos,
A boca negra, os dentes amarellos.
Taõ grande era de membros, que bem posso
Certificar-te, que este era o segundo
De Rhodes estranhissimo Colosso,
Que hum dos sete milagres foi do Mundo:
Co’hum tom de voz nos falla horrendo, e grosso,
Que pareceo sahir do mar profundo:
Arrepiam-se as carnes, e o cabello,
A mi, e a todos, só de ouvi-lo, e vello.
But a stanza still more admired, is that in which the gigantic spirit describes his rage on discovering that he was embracing a rock, while he fancied he held in his arms the goddess of whom he was enamoured:--
Oh, que naõ sei de noja como o conte!
Que crendo ter nos braços quem amava,
Abraçando me achei co hum duro monte
De aspero mato e de espessura brava.
Estando co’hum penedo fronte a fronte,
Que eu per o rosto angelico apertava,
Naõ fiquei homem, naõ, mas mundo e quedo,
E junto a hum penedo, outro penedo.
_Canto V._
[160] Canto V. Estancia 35.--The recollection of this merry shipmate seems to have been preserved among Portuguese seamen, from Vasco da Gama’s time down to the age of Camoens.
[161]
Entrava neste tempo e eterno lume
No animal Nemeo truculento,
E o mundo, que co o tempo se consume
Na sexta idade andava inferno e lento;
Nella vè, como tinha per costume,
Cursos do Sol catorze veces cento,
Com mais noventa e sete, en que corria,
Quando no mar a armada se estendia.
_Canto V. Est. 2._
[162]
Algum repouso, em fim, com que pudesse
Refocilar a lassa humanidade
Dos navegantes seus, como interesse
Do trabalho que encurta a breve idade.
_Canto IX. est. 20._
[163] In quoting the commencement of this description it is difficult to know where to stop:--
Tres formosos outeiros se mostravam
Erguidos com soberba graciosa,
Que de gramineo esmalte se adornavam,
Na formosa Ilha alegre, e deleitosa:
Claras fontes, e limpidas manavam
Do cume, que a verdura tem viçosa:
Por entre pedras alvas se deriva
A sonorosa lympha fugitiva.
N’hum valle ameno, que os outeiros fende,
Vinham as claras aguas ajuntar-se,
Onde huma mesa fazem, que se estende,
Taõ bella, quanto póde imaginar-se:
Arvoredo gentil sobre ella pende,
Como que prompto está para affeitar-se,
Vendo-se no crystal resplandecente,
Que em si o está pintando propriamente.
Mil arvores estaõ ao Ceo subindo,
Com pomos odoriferos, e bellos:
A larangeira tem no fructo lindo
A côr que tinha Daphne nos cabellos:
Encosta-se no chaõ, que está cahindo
A cidreira co’os pesos amarellos:
Os formosos limões, alli cheirando,
Estaõ virgineas tetas imitando.
_Cant. IX._
The flowers of this enchanted garden are then described with the most charming luxuriance.
[164] The festival commences with the following description of the simulated flight of the nymphs when they first espy the Portuguese:--
Sigamos estas deosas, e vejamos
Se phantasticas saõ, se verdadeiras.
Isto dito; velozes mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras,
Fugindo as Nymphas vaõ por entre os ramos;
Mas mais industriosas, que ligeiras,
Pouco e pouco sorrindo, e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando
De huma os cabellos de ouro o vento leva
Correndo, e d’outra as faldas delicadas:
Accende-se o desejo, que se ceva
Nas alvas comes subito mostradas.
Huma de industria cahe, e já releva
Com mostras mais macias, que indignadas,
Que sobre ella empecendo tambem caia
Quem a seguio por a arenosa praia.
Outros por outra parte vaõ topar
Com as deosas despidas, que se lavam:
Ellas começam subito a gritar
Como que assalto tal naõ esperavam.
Humas fingido menos estimar
A vergonha, que a força se lançavam
Nuas por entre o mato aos olhos dando
O que ás maõs cobiçosas vaõ negando.
_Cant. IX._
[165]
Vaõ os annos descendo, e ja do Estio
Ha pouco que passar até o Outono;
A Fortuna me faz o engenho frio,
De qual ja me naõ jacto, nem me abono.
Os desgostos me vaõ levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono.
[166] The translator who undertakes to produce a good version of the Lusiad, must, in the first place, adopt no other metre than that of the original, for on the structure of the verse the style of the poem materially depends. He must, moreover, diffuse over the whole composition a character equally natural and dignified, and, where mythological ornament is not introduced, perfectly simple. Finally, he must avoid all antiquated and uncommon turns of expression; for the language of Camoens is always elegant and modern.
[167] Manuel de Faria y Sousa was the first who started this question, which is now generally decided against Diogo Bernardes. Notices on this subject maybe found in the prefaces to the third and fourth volumes of the new and elegant edition of the _Obras de Luis de Camoõe, segunda edição da que se fez em Lisboa, nos annos 1779 e 1780_. Lisbon 1782, in five small volumes. A mythological and historical index to the Lusiad, though a very imperfect one, enhances the value of this edition. The older editions of the works of Camoens are noticed by Dieze in his appendix to Velasquez. Manuel de Faria y Sousa’s commentary on the works of Camoens, pedantic as it is, contains some useful historical elucidations.
[168] For instance the following, which certainly takes a very bold flight, in order to place in a new point of view the marvellous beauty of the lady to whom it is addressed:--
Quando da bella vista, e doce riso,
Tomando estaõ meus olhos mantimento,
Taõ elevado sinto o pensamento,
Que me faz ver na terra o Paraiso.
Tanto do bem humano estou diviso,
Que qualquer outro bem julgo por vento:
Assi que em termo tal, segundo sento,
Pouco vem a fazer quem perde o siso.
Em louvar-vos, Senhora, naõ me fundo;
Porque quem vossas graças claro sente,
Sentirá que naõ póde conhecellas.
Pois de tanta estranheza sois ao Mundo,
Que naõ he de estranhar, Dama excellente,
Que quem voz fez, fizesse Ceo, e Estrellas.
[169] Such, for example, is the romantic reminiscence of the fourteen years service of the patriarch Jacob. This sonnet is particularly esteemed, and has been glossed by other poets.
Sete annos de Pastor Jacob servia
Labaõ, pai de Raquel, Serrana bella,
Mas naõ servia ao pai, servia a ella,
Que a ella só por premio pertendia
Os dias na esperança de hum só dia
Passava, contentando-se com vella:
Porém o pai, usando de cautella,
Em lugar de Rachel lhe deo a Lia.
Vende o triste Pastor que com enganos,
Assi lhe era negada a sua Pastora,
Como se a naõ tivera merecida;
Começou a servir outros sete annos,
Dizendo: Mais servíra, senaõ fora
Pera taõ longo amor taõ curta a vida.
[170] Can any thing more strongly resemble Petrarch, both in spirit and style than the following stanza? The whole cançaõ is, however, imitated from Bembo.
Hum naõ sei que suave respirando
Causava hum desusado, e novo espanto,
Que as cousas insensiveis o sentiam:
Porque as garrulas aves entretanto
Vozes desordenadas levantando
Como eu em meu desejo, se encendiam.
As fontes crystillinas naõ corriam,
Inflammadas na vista clara, e pura:
Florecia a verdura,
Que andando, co’os ditosos pès tocava:
As ramas se baixavam,
Ou de inveja das hervas que pizavam,
Ou porque tudo ante elles se baixava.
O ar, o vento, o dia,
De espiritos continuos influia.
[171] The following is a specimen of a lyric description of morning in a lover’s taste:--
Já a roxa manhãa clara
As portas do Oriente vinha abrindo,
Dos montes descobrindo
A negra escuridaõ da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
Da sua alegre vista saudoso,
Traz ella presuroso
Nos cavallos cansados do trabalho,
Que respiram nas hervas fresco orvalho,
Se estende claro, alegre, e luminoso.
Os passaros voando,
De raminho em raminho vaõ saltando;
E com suave, e doce melodia
O claro dia estaõ manifestando.
A manhãa bella, amena,
Seu rosto descobrindo, a espessura
Se cobre de verdura
Clara, suave, angelica, serena.
Oh deleitosa pena!
Oh effeito de amor alto, e potente!
Pois permitte, e consente,
Que ou donde quer que eu ande, ou donde esteja,
O seraphico gesto sempre veja,
Por quem de viver triste sou contentes,
Mas tu, Aurora pura,
De tanto bem dá graças à ventura,
Pois as foi pôr em ti taõ excellentes,
Que representes tanta formosura.
[172]
Detém hum pouco, Musa, o largo pranto
Que amor te abre do peito;
E vestida de rico, e lédo manto,
Demos honra, e respeito,
A’quella, cujo objeito
Todo o Mundo allumía,
Trocando a noite escura em claro dia.
O’Delia, que a pezar da nevoa grossa,
Co’os teus raios de prata,
A noite escura fazes que naõ possa
Encontrar o que trata,
Eo que na alma retrata
Amor por teu divino
Raio, porque endoudeço, e desatino.
Tu, que de formosissimas estrellas
Coròas, e rodêas
Tua candida fronte, e faces bellas;
E os campos formosêas
Co’as rosas que semêas,
Co’as boninas que gera
O teu celeste humor na Primavera.
[173]
Secreta noite, amiga, a que obedeço,
Estas rosas (por quanto
Meus queixumes me ouviste) te offereço,
E este fresco amaranto,
Humido inde do pranto
E lagrimas da esposa
Do cioso Titam, branca e formosa.
[174] The first of these elegies commences very much like versified prose, and in a manner which would scarcely induce the reader to suppose he was perusing even the opening of an epistle. The spirit of the composition does not begin to manifest itself until the sixteenth line:--
O Poeta Simonides fallando
Co’o Capitam Themistocles hum dia,
Em cousas de sciencia praticando,
Hum’ arte singular lhe promettia,
Que entaõ compunha, com que lhe ensinasse
A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde taõ subtis regras lhe mostrasse,
Que nunca lhe passassem da memoria
Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama, e gloria,
Quem dava regra contra o esquecimento
Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitam claro, cujo intento
Bem differente estava, porque havia,
Do passado as lembranças, por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia)
Pois tanto em teu engenho te confias,
Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum’ arte, que em meus dias
Me naõ lembrasse nada do passado,
Oh quanto melhor obra me farias!
[175] The following passage, which is from the beautiful fifth elegy, must not be omitted in this collection:--
Oh bemaventurado seja o dia
Em que tomei taõ doce pensamento,
Que de todos os outros me desvia!
E bemaventurado o soffrimento
Que soube ser capaz de tanta pena,
Vendo que o foi da causa o entendimento.
Faça-me quem me mata, o mal que ordena,
Trate-me com enganos, desamores;
Que entaõ me salva quando me condena.
E se de taõ suaves desfavores,
Penando vive hum’ alma consumida,
Oh que doce penar! Que doces dores!
E se huma condição endurecida
Tambem me nega a morte por meu dano,
Oh que doce morrer! Que doce vida!
[176] The principal idea of this song of sorrow, the beauties of which are perfectly national, is the comparison of the present and the past in the situation of the poet, with an imaginary Babylon and Sion. Sion represents the past. The first half of the poem affords no anticipation of the nature of the second half:--
Sobre os rios, que vaõ
Por Babylonia me achei,
Onde sentado charei
As lembranças de Siaõ,
E quanto nelle passei.
Alli o rio corrente
De meus olhos foi manado,
E todo bem comparado,
Babylonia ao mal presente,
Siaõ ao tempo passado.
Among the most beautiful stanzas are those in which the poet celebrates the power of song in sorrow, and the limits of that power.
Canta o caminhante lédo,
No caminho trabalhoso,
Por entre o espesso arvoredo,
E de noite o temeroso
Cantando refrê a o medo.
Canta o preso docemente,
Os duros grilhões tocando;
Canta o segador contente;
E o trabalhador cantando,
O trabalho menos sente.
Eu que estas cousas senti
N’alma, de mágoas taõ chêa,
Como dirá, respondi,
Quem alheo está de si,
Doce canto em terra alhêa?
Como poderá cantar
Quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar,
Canta por menos cansar,
Eu só descansos engeito.
Que naõ parece razaõ
Nem seria cousa idonia,
Por abrandar a paixaõ,
Que cantasse em Babylonia
As cantigas de Siaõ,
Que quando a muita graveza,
De saudade quebrante
Esta vital fortaleza,
Antes morra de tristeza,
Que por abrandá-la cante.
[177] See page 30.
[178] For example:--
Verdes saõ os campos,
De côr e limaõ:
Assi saõ os olhos
De meu coraçaõ.
Campo, que te estendes
Com verdura bella;
Ovelhas, que nella
Vosso pasto tendes;
De hervas vos mantendes,
Que traz o Veraõ,
E eu das lembranças
Do meu coraçaõ,
Gados, que passeis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Naõ o entendeis.
Isso que comeis,
Naõ saõ hervas, naõ
Saõ graça dos olhos
Do meu coraçaõ.
[179] For example:--
Na fonte está Leonor,
Lavanda a talha, e chorando,
Ás amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
Posto o pensamento nelle,
Porque a tudo o amor a obriga,
Cantava, mas a cantiga
Eram sospiros por elle.
Nisto estava Leonor
O seu desejo enganando,
Ás amigas perguntando:
Vistes lá o meu amor?
O rosto sobre huma maõ,
Os olhos no chaõ pregados,
Que do chorar já cansados,
Algum descanso lhe daõ,
Desta sorte Leonor
Suspende de quando em quando
Sua dor; e em si tornando,
Mais pezada sente a dor.
Naõ deita dos olhos agoa,
Que naõ quer que a dor se abrande
Amor, porque em mágoa grande
Sécca as lagrimas a mágoa
Que despois de seu amor
Soube novas perguntando,
D’ improviso a vi chorando
Olhai que extremos de dor!
[180] That a short specimen of Camoens’s dramatic style may not be wanting in this collection of examples, a passage is here subjoined from a scene which is intended to be jocular. Duriano is a spruce country lover, and Solina is his town-bred mistress.
_Dur._ O que vos quero m’ engana,
Mas o que desejo naõ.
Naõ ha aqui senaõ paredes,
As quaes naõ fallam, nem vem.
_Solin._ Está isso muito bem.
Bem e vós, Senhor, naõ vedes,
Que poderá vir alguem,
_Dur._ Que vos custam dous abraços?
_Solin._ Naõ quero tantos despejos.
_Dur._ Pois que faraõ meus desejos,
Que querem ter-vos nos braços
E dar-vos trezentos beijos?
_Solin._ Olhai que pouca vergonha!
Hi-vos di, boca de praga.
_Dur._ Eu naõ sei certo a que ponha
Mostrardes-me a triaga,
E virdes-me a dar peçonha.
_Solin._ Ora ide rir á feira,
E naõ sejas dessa laia.
_Dur._ Se vedes minha canseira,
Porque lhe naõ dais maneira?
_Solin._ Que maneira?
_Dur._ A da saia.
_Solin._ Por minha alma, hei de vos dar
Meia duzia de portadas.
_Dur._ Oh que gostosas pancadas!
Mui bem vos podeis vingar,
Que em mim saõ bem empregadas.
_Solin._ Ao diabo, que o eu dou.
Como me doeo a maõ!
_Dur._ Mostrai cá, minha affeiçaõ,
Que essa dor me magoou
Dentro no meu coraçaõ.
_Filodemo_, Act. II.
[181] See preceding vol. p. 217.
[182] See present vol. p. 33.
[183] See preceding vol. p. 258.
[184] The different editions of the _Cancionero_, or the collection of the miscellaneous poems of Montemayor, are noticed by Barbosa Machado, under the head _Jorge de Montemayor_.
[185] This neat edition is entitled, _Poezias de Pedro de Andrade Caminha, mandadas a publicar pela real Academia das Sciencias de Lisboa_, _Lisb._ 1791, in 8^o. The preface contains the history of the discovery of these poems, and notices of the manuscript copies of them which are contained in different libraries.
[186] In his second epistle he thus addresses his own book, that is to say, his collection of poems:--
Cuidará, Livro, alguem que te dezejo
Azas, com que por tudo vás voando
E enchas o Mundo do que sinto, e vejo.
Ciudará que te quero hir procurando
Que sejas entre todos bem ouvido
E que a teu nome os vás afeiçoando.
Mas eu, Livro naõ sou descomedido;
Conheço-te, e sei bem que o naõ mereço,
Que nunca fui das Muzas conhecido.
Sempre as ouvi de longe, só conheço
Que as deve dezejar todo alto esprito,
Que dezeja no Mundo hum alto preço.
[187] For example, he thus addresses himself to Ferreira as a friend and pupil:--
Antonio, quando vejo o ingenho raro,
O puro esprito que nos vás mostrando,
O estilo facil, alto, limpo e claro,
Vejo que vás em tudo renovando
Aquella antiguidade, que inda agora
Com grande nome, e fama está espantando.
Vejo em ti sempre maravilhas, hora
Cantes da viva, da amorosa chamma
Que um’ Alma faz captiva, outra senhora;
Ou nos mostres do que baixamente ama
Amores em baixezas só fundados,
Destruidores máos da limpa fama;
Hora sejam teus versos entoados
O’ som da doce frauta, a cujo som
Forom os do gram Titiro cantados.
_Epist. IX._
[188] To such critics he very properly says:--
O espirito que nom voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razaõ, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assi reprova,
Qu’ em juizo appressado á razaõ leve.
A reprensaõ no mundo nom é nova,
Mas quem melhor entende, mais d’espaço
O máo reprende, ou o melhor approva.
Tem as lingoas agudas mais que d’aço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vaõs, indontos reprensores,
Nom sofrem as Musas ser assi tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
_Epist. XVII._
[189] The following is the commencement of an elegy on Winter, which was probably intended as a companion to Ferreira’s elegy on May:--
Apos o Veram brando, o Inverno duro
Começa triste, e cheo de asperezas,
Importuno, pezado, frio, e escuro.
Entra o tempo com furias, e bravezas
Na terra, n’agoa, no ar faz movimentos
Que ameaçaõ mil danos, e tristezas.
Revolvem tudo os furiosos ventos,
E parece que tem aspera guerra
Uns com outros os grandes elementos.
Mais pezada se torna, e grave a terra
E tudo quanto de antes produzia
Nega, e dentro em si mesma esconde, e encerra.
O que hora ós olhos mostra, o que hora cria,
Tojos, espinhos, cardos, o seccura,
Tudo alheo de graça, e d’alegria.
Cessou aquella varia fermosura
De differentes rosas, varias flores
De que se ornaõ as plantas, e a verdura.
Das fontes nom taõ claros as liquores
Correm, como corriaõ; turvo é tudo;
Tem as aves silencio em seus amores.
[190] The following epitaph on Queen Maria is none of the most insignificant.
Filha de Reys, e may, e irmã; e tia,
Avó de Reys, e de tudo isto dina,
De qual outra outro tanto se diria
Como dest’ alta Rainha já divina?
Mulher de _Manoel_, grande _Maria_,
Por quem todo alto esprito inda s’ensina.
E pode com tudo isto a ley da Morte
Darlhe esta estreita sepultura em sorte.
[191] As in the following epitaph on Prince Dom Duarte:--
_Duarte_ foy, filho de _Joaõ_ Terceiro
Este que aqui debaixo está encerrado.
Do Pay em tudo filho verdadeiro,
Na flor da idade da morte cortado.
Pouco viveo, inuito mostrou primeiro,
Com que de todos era bem amado.
Mostrouse tarde, mas foy tam sentido,
Como que sempre fora conhecido.
[192]
Um corpo aqui se guarda governado
Em outro tempo d’um tam claro Esprito:
Que nunca poderá ser igualado
D’ humano canto, ou de mortal escrito.
_Affonso d’Albuquerque_ foi chamado,
De quem levanta a Fama immortal grito:
De Reis vem, Reis honrou, a Reis venceo,
E de seu nome a todo mundo encheo.
[193]
Aqui _Ferreira_ jaz, aqui _Ferreira_
De mil, e mil amigos é chorado.
E seu nome com fama verdadeira
De mil, e mil espritos é cantado.
Da Morte, no chegar sempre ligeira,
Da vida antes de tempo foy levado.
Seu corpo aqui, su Alma está na Gloria,
Seu nome em todo mundo, e sua memoria.
[194] As in the epigrammatic description of Echo, or the transformed nymph of that name:--
Para mim nom, para outros tenho vida;
Nom tendo corpo, occupo grandes valles;
Nom tenho propria voz, e som ouvida;
Nom ouvindo, respondo a bens, e males;
Sem nunca vista ser, som conhecida;
Lugar proprio nom tenho, e em muitos ando.
Nisto fui transformada de improviso
Do Amor, que a meu amor nunca foi brando.
Foi meu nome Echo, e meu Amor _Narcizo_.
E minha morte, a morte de _Narcizo_.
[195] In one of the epigrams he thus speaks of the wounds of love:--
Toda chaga no peito é perigosa,
Mortal no coraçaõ toda ferida.
Pois como nelles deixa a venenosa
Setta o Amor duro, e faz que dure a vida?
Porque assim duramente o Amor ordena,
Que dure a vida, porque dure a pena.
[196] For example, the following on a nosegay:--
Ditosas, bem nacidas, brandas flores,
D’uns olhos vistas, d’umas maõs tocadas,
Que em suavidade, e cheiro, graça, e cores
Vos teraõ cora vantajem conservadas:
Das Graças, e do Amor e dos Amores
Com rezaõ sereis sempre acompanhadas;
E o vosso fermosissimo concerto,
Trará toda Alma em grande desconcerto.
[197] The following is on an eccentric poet:--
Dizes que o bom Poeta á de ter furia;
Se nom á de ter mais, és bom Poeta.
Mas se o Poeta á de ter mais que furia,
Tu nom tens mais que furia de Poeta.
[198] The article _Diogo Bernardes_ in Barbosa Machado’s Lexicon of learned men, is very honourable to Bernardes; and this writer is mentioned in terms of still higher commendation in the biographical preface to the new edition of Ferreira’s poems. (See p. 114 of the present vol.) Barbosa Machado also gives notices of the old editions of the various works of this poet, who is scarcely known on this side of the Pyrenees even by name.
[199] _Varias rimas ao bom Jesus, e à virgem gloriosa sua mái, &c. Com outras mais do honesta e proveitosa liçam. Por Diogo Bernardes, natural de Ponte de Lima. Lisboa, 1770, 1 vol. octavo._ This new edition proves that the recollection of Bernardes has been again revived among the Portuguese public, and also that poetic works of devotion are still well received in Portugal.
[200] The two following opening stanzas of a hymn by Bernardes to the Virgin, are only a higher kind of litany:--
Oh Virgem, das mais Sanctas a mais Sancta,
Do inconstante mar fiel estrella,
Porta do Paraiso, estrada, e guia,
Volvei os olhos bellos, Virgem bella,
Vede tanta estreiteza, magoa tanta,
Quanta com magoa choro a noute, e o dia.
Naõ me dexeis sumir, doce Maria,
Neste profundo pego;
Porque povo tam cego,
Como se ri de mi, de vós naõ ria,
E salba que deixastes castigarme
Por gram peccador ser,
E naõ por naõ poder do seu livrarme.
Oh Virgem d’humildade, e graça chea,
Que converteis em riso o triste pranto,
Da triste miseravel vida nossa;
Como vos cantarei alegre canto
Cativo, sem repouso, em terra alheia,
Entre barbara gente imiga vosso?
Desatai vós esta cadea grossa,
Que meus erros sem fim
Forjaraõ para mim,
Porque solto por vós, cantar vos possa
Na ribeira do Lima sem receo,
(Oh Madre de _Jesus_)
Naõ de turvo Lucuz, de sangue cheo.
[201] The following is one of these romantic spiritual sonnets:--
Oh Virgem bella, e branda, quem já vira
Este coraçaõ meu tam inflammado
Em vosso doce amor, que outro cuidado,
Outro querer em si naõ consentira!
Oh quem azas me dera que sobira,
Das affeições humanas desatado,
A tam seguro, e venturoso estado,
Onde em vaõ naõ se chora, nem suspira.
Em tanto como póde desejarvos
Sem culpa, quem reparte o seu desejo,
Todo devido a vós sem falar nada?
Tal vos vejo, Senhora, e tal me vejo,
Que sei de mi que naõ mereço amarvos,
Merecendo vós só de ser amada.
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