Chapter XVI: Conclusion (3)
[202] They are in this manner added to the new edition of the _Rimas ao bom Jesus_, already mentioned.
[203] The following is a passage from one of these elegies. Bernardes addresses the shades of the friends who fell by his side in the unfortunate battle:--
Oh amigos, com quem m’aventurei,
Com quem fui sem ventura aventureiro,
Sempre, pois vos perdi, triste serei.
Sendo no fero assalto companheiro,
A vós pos-vos no Ceo o fim da guerra,
A mim em miseravel cativeiro.
Bem vedes qual o passo nesta serra,
Inda que naõ he justo que vejais
Terra, que vos negou tam pouca terra;
Terra, que quanto nella choro mais,
Tanto mais com meu choro se endurece,
E menos move a dôr seus naturais.
Tudo, o que nella vejo, m’entristece,
Triste me deixa o Sol em transmontãdo,
Triste me torna a ver quando amanhece.
Sempre com humor triste estou banhado
O pé deste soberbo alto rochedo,
Que minha dôr está accrescentando.
[204] For example, a moral composition of this kind, which commences thus:--
Alma minha, oh alma
De ti esquecida
Porque das á vida
De ti mesma a palma?
Ella te maltrata,
Tu tras ella corres:
Porque tanto morres
Pelo que te mata?
Quanto se deseja,
Quanto se procura,
Doulhe que se veja,
Que val, ou que dura?
Naõ sei donde vem
Desconcerto tal,
Trocar certo bem
Por mui certo mal.
[205] In one of these epistles he attributes all the poetic merit which his poetry may possess, to the instructions of Ferreira:--
Se me naõ dera ao Mundo em taõ ditosos
Annos, de mim que fora? que por ti
Espero de ter nome entre os famosos.
Por mim nunca subira, onde subi,
Meu nome com a vida s’acabára,
O Mundo naõ soubera se nasci.
Confesso dever tudo aquella rara
Doutrina tua, que me quiz ser guia
Do celebrado monte a fonte clara.
E por te dever mais, se a luz do dia
Te parecer, que saiaõ meus escritos,
Na tua pena está sua valia.
[206] It is reprinted as a supplement to the new edition of Ferreira’s works.
[207] See preceding vol. p. 406.
[208] Barbosa Machado gives a catalogue of the writings of Cortereal.
[209] Barbosa Machado enumerates the titles of the comedies of Ferreira de Vasconcellos. I have had no opportunity of perusing them myself.
[210] These scanty notices are furnished by Niclas Antonio and Barbosa Machado. Dieze has collected from the same sources the particulars respecting Rodriguez Lobo, which are contained in his appendix to Velasquez. The works of this poet, are published under the inappropriate title of _Obras_ politicas, moraes _e metricas do insigne poeta Portuguez Francisco Rodriguez Lobo, &c. Lisboa_, 1723, in one neatly printed folio volume. But even this edition which was intended to revive the recollection of one of the best Portuguese poets, contains no account of that poet’s life.
[211] Perto da Cidade principal da Lusitania está huma graciosa Aldea, que com igual distancia fica situada à vista do mar Oceano, fresca no Veram, com muytos favores da naturesa, et rica no Estio, et Inverno com os frutos, et commodidades, que ajudam a passar a vida saborosamente; porque com a vesinhança dos portos do mar por huma parte, et da outra com a communicaçam de huma ribeyra, que enche os seus vales, et outeyros de arvoredos, et verdura, tem em todos os tempos de anno, o que em differentes lugares costuma buscar a necessidade dos homens: et por este respeyto foy sempre o sitio escolhido, para desvio da Corte, et voluntario desterro do trafego della: dos Corlesaõs que alli tinham quintas, amigos, ou heranças que costumaõ ser valhacouto dos excessivos gastos da Cidade; &c.
[212] Entre outros homens, que naquella companhia se achavam, eraõ nella mais costumados em anoytecendo; hum letrado, que alli tinha hum casal, et que já tivera honrados cargos do governo da Justiça na Cidade, homem prudente, concertado na vida, douto na sua profiçam, et lido nas historias da humanidade. Hum Fidalgo mancebo, inclinado ao exercicio da caça, et muyto afeyçoado às cousas da Patria, em cujas historias estava bem visto. Hum Estudante de bom engenho, que entre os seus estudos se empregava algumas veses nos da Poesia. Hum velho naõ muyto rico, que tinha servido a hum dos Grandes da Corte, com cujo galardaõ se reparara naquelle lugar, homem de boa criaçam, et alem de bem entendido, notavelmente engraçado no que dizia, et muyto natural de huma murmuraçam que ficase entre o couro et a carne, sem dar ferida penetrante.
[213] The delicacy with which one of the party apologizes for the ill-breeding of his servant, possesses at least the merit of not being trivial.
E eu (respondeo elle) se vos naõ encontrara, ainda naõ tinha entendido o vosso moço, porque de màneyra embaraçou o que me mandaveis dizer, que nem por discrição pude tirar o recado; nem vos desfaçais delle para os que forem de importancia, que val a peso de ouro; a isto se começaraõ todos a rir, et tornou Solino: O meu moço, Senhor D. Julio, tem disculpa em ser nescio, porque he meu moço, que se soubera mais, eu o servira a elle. Mas os criados dos grandes, como vos, esses ande ser discretos, pois saõ taõ bons como eu, et com tudo eu vos sey dizer que hà aqui moço que no dar hum recado o podera fazer como ao que là mãdey, que naõ he dos peores da sua ralé et já entremete de ler carta mãdadeyra, mas nos recados ainda agora lè por nomes, et naõ acerta a nenhuma cousa.
[214] As in the following reasoning concerning the fashionable education of young men of rank at court.
Quatro maneyras de exercicios ha na Corte, que para todas as cousas civis fazem hum homem politico, cortez, et agradavel aos outros. A primeyra he o trato dos Principes, et a communicaçaõ das pessoas que andaõ junto a elle: nesta consiste o principal do a que chamamos Corte, que he conhecimento daquelle supremo tribunal da terra, do Rey, ou Principe a quem pertence mandar, como a todos os inferiores obedecer na conformidade das leys porque se governaõ. Tras isto o estado, et serviço do mesmo Rey, et dos seus, a obediencia, a cortesia, a inclinaçaõ, a mesura, a discrição no fallar, a policia no vestir, o estylo no escrever, a confiança no apparecer, a vigilancia no servir, a gentileza, et bizarria que para os lugares publicos se requere. O trato do Principe no Paço, na mesa, no conselho, na caça, nos caminhos, et occasiones, como se grangeaõ os validos, se visitaõ os Grandes, et como se haõ de haver os cortesaõs para cõmunicar a huns et outros.
[215] The commencement of one of the stories which are interspersed through this book may be transcribed here:--
Na Corte do Emperador de Alemanha Oton terceyro deste nome, que foy a mais florente et frequentada de Princepes, que houve muytos annos antes, et despois naquelle Imperio, assistio com grande satisfaçaõ de suas partes, Aleramo filho do Duque de Saxonia, mancebo de pouca idade, et de muyta gentilesa, magnanimo, esforçado, liberal, et tam cheyo de graças naturaes, que nelle como em hum thesouro, parece que as depositàra todas a naturesa. Tinha o Emperador hum filha da mesma idade, et de tanta fermosura, que sem o que a sorte devia a seu nascimento, merecia ter o Imperio do mundo; et se em bellesa tinha esta ventagem a todas as Damas de Alemanha, ainda lha fazia muy to mayor na descrição, aviso, et galantaria.
[216] See p. 34.
[217] For example:--
Pela parte por onde vem decendo o rio Lis, antes de chegar aos espaçosos valles, que com sua corrente vay regando, toma hum estreyto caminho entre altos arvoredos, aonde com profundo se detem atè chegar á queda de huma alta penedia, et alli repartidas as agoas, medrosas vaõ fugindo por entre as raizes de amargosas novigueyras, outras offerecendose aos penedos com saudoso som estaõ nelles quebrando, et depois ficaõ derramadas em dous ribeyros, o mayor depois de muytas voltas se vay a encontrar primeyro com as agoas de que se apartou entre altos ciprestes, et loureyros. O outro ao voltar de hum valle se vay encostando a huma alta rocha por bayxo de espessas aveleyras, et esperando as agoas humas pelas outras descobrem a boca de huma lapa encuberta entre huns ramos, que vay por bayxo do chaõ huma legoa, et nesta havia fama, que vivia hum sabio de muyta idade, que por encantamento a fabricára, &c.
[218] The following are the commencing stanzas of this song:--
Ja nasce o bello dia
Principio do veraõ fermoso e brando,
Que com nova alegria
Estaõ denunciando,
As aves namoradas
Dos floridos raminhos penduradas.
Jà abre a bella Aurora
Com nova luz as portas do Oriente,
E mostra a linda Flora
O prado mais contente,
Vestido de boninas,
Aljofradas de gotas cristalinas.
Jà o Sol mais fermoso
Està ferindo as agoas prateadas,
E Zefiro queyxoso
Hora as mostra encrespadas
A vista dos penedos,
Hora sobre ellas move os arvoredos.
De reluzente area
Se mostra mais fermosa a rica prata,
Cuja riba se arrea
Do alemo, et da faya,
Do freyxo, et do salgueyro,
Do ulmo, da aveleyra, et do loureyro.
[219] For instance, at the close of a beautiful cançaõ, which a shepherd sings in his solitude.
Porem, se sonha fora
Como este prado e valle inda apparece,
Estas ramos sombrios, este onteiro,
Que mostram ainda agora
A verdura das folhas, que escurece
A falta do seu sol, como primeiro?
Como naõ foi ligeiro
O monte, a valle, as plantas e a verdura
Tras sua formosura!
Porque era todo agreste;
Solo que ella levava, era celeste.
[220] For example:--
Passa o bem como sombra, et na memoria
He mayor quanto foy mais desejado;
A pena ensina a conhecer a gloria,
Naõ se conhece o bem senaõ passado.
Em mim o caso soube desta historia,
E no que mostrou ja meu cuydado,
Vejo no que naõ vejo, et no que via,
Quaõ pouco tempo dura huma alegria,
Quanto melhor me fora se naõ vira
Hum enganoso, et vaõ contentamento,
Que ainda que faltarme alli sentira,
Era muyto menor o sentimento.
Mas vio minha alma o bem porque suspira,
Foy traz elle seguindo o pensamento,
Que como era novel, naõ conhecia
Quam pouco tempo dura huma alegria.
[221] As in the following pleasing sonnet:--
Agoas, que penduradas desta altura
Cahis sobre os penedos descuydadas,
Aonde em branca escuma levantadas
Offendidas mostrais mais fermosura;
Se achais essa dureza tam segura,
Para que porfiais aguas cansadas?
Ha tantos annos ja desenganadas,
E esta rocha mais aspera, et mais dura.
Voltay a traz por entre os arvoredos,
Aonde os camenhareis com liberdade,
Atè chegar ao fim tam desejado.
Mas ay que saõ de amor estes segredos,
Que vos naõ valerà propria vontade,
Como a mim naõ valeo no meu cuidado.
[222]
Sae o Sol desejado,
Dà aos campos a cor, o ser ao dia,
O pasto ao manso gado.
Correndo vem traz elle a noyte fria,
Onde jà sua luz naõ resplandece,
E alli quando amanhece
Nos deyxe conhecer,
Que para aparecer desaparece.
Hum dia vay fugindo,
E o que corre traz elle nos alcança,
E todos se vaõ rindo
De meu engano vaõ, minha esperança,
Que por mais que a ventura me desvia,
Vivo nesta porfia,
Segundo meus enganos,
Esperando em mil annos hum só dia.
[223] They must be transcribed here at length, for fragments would not afford an idea of their spirit. It would be difficult to find any more tender sports of fancy of this kind.
_Reposta de Ardenio à pergunta primeyra._
Quem ama sem esperança,
Se ama mais perfeytamente?
Ninguem ama sem querer,
Ninguem quer sem esperar,
O que ama, espera, et quer,
Poderà nunca alcançar,
Mas sempre ha de pertender.
Se a era lhe falta à planta,
Em cujo tronco se arrime,
Nem cresce, nem se alevanta,
Que em fim naõ tem força tanta,
Que se levante, et sublime.
E se a amor lhe faltàra
Esperança, que o sustente,
Na raiz propria se cura,
E inda naõ sey se brotàra,
Ou se afogára a semente.
De sorte que em qualquer peyto,
Sem esperança ou favor
De seu desejado objecto,
Naõ só falta Amor perfeyto,
Mas falta de todo Amor.
_Reposta da pastora Dinarea à mesma pergunta._
Amor, que a proprio respeyto
Todo o dezejo offerece
Só por seu gosto, ou proveyto,
Naõ se chame amor perfeyto,
Antes perfeyto interesse.
Amor he somente amar,
Este he seu meyo, et seu fim,
E o que pretende alcançar,
Nem se ha de lembrar de sim,
Nem do que pode esperar.
O que he verdadeyro amante
Naõ se funda na esperança,
Só seu querer poem diante,
E se por ventura alcança,
Sem ventura he mais constante.
Quando n’alma huma bellesa
Mostra seu rayo invencivel,
E amor seu preço, et grandeza,
Naõ faz differente empreza
Entre facil, et impossivel.
E he ja cousa averiguada,
Que somente este rigor
Merece ante a cousa amada,
E o que quizer mais de amor,
Nem quer, nem mereceo nada.
[224] To these three competition songs a page or two must be devoted. Fanciful compositions of this kind, though now out of date, are curious; and ingenious simplicity in so elegant a form is seldom to be met with even in romantic literature.
_Reposta de Riseo à tercera pergunta»_
Que parentesco chegado
Tem amor com o ciume.
Amor como se presume
Ouve por certa affeyçaõ,
Hum filho da ocasiaõ,
A que chàmaraõ Ciume.
He igual ao pay, et mór,
Que amor com muyta grandeza,
Palreyro por natureza,
Que em fim he filho de Amor.
Vè muyto aonde quer que vay,
Naõ voa, antes he pezado,
E em qualquer parte tocado,
Tem o topete da mãy.
Vive de enganos que faz,
E anda nelles de contino,
E como Amor he menino,
Tambem o filho he rapaz.
Dà ao pay sempre mà vida,
E assim naõ me maravilho,
Que disconheçaõ por filho,
Porque Amor mesmo duvida.
_Reposta de Egerio à mesma pergunta._
Estes irmaõs desiguaes,
Ambos de Venus nascèraõ,
E tiranos se fizeraõ
Do Imperio de seus pays.
Nasceo de Vulcano cego
O Ciume, et logo entaõ
Tomou o cargo este irmaõ,
A quem nunca deu socego.
E parecia acertado
Que hum filho que tal parece
Da fermosura nascesse,
E de hum pay desconfiado.
Ambos nascem juntamente,
E vivem fazendo dano,
Hum com redes de Vulcano,
Outro com seu fogo ardente.
Seguem differente fim,
E vivem sempre em perigo,
Cada hum do outro inimigo,
E acompanhaõ sempre assim.
Mostre por prova melhor,
Quem o contrario presume,
Se vio Amor sem ciume,
Ou ciume sem amor?
_Reposta de Lereno à mesma pergunta._
Nestes dous naõ ha liança,
Nem pode haver amizade,
Que hum he filho da vontade,
Outro da confiança.
Hum de nobre, inda que agora
Degenere do em que estava,
Ciume he filho de escrava,
E Amor filho de senhora.
E claramente se apura
Ser o outro escravo seu,
Porque em dote se lhe deu,
Casando co a fermosura.
Servio de guia, et da fè
Mil vezes falsa, et errada,
E porque Amor naõ vè nada
Lhe mostra mais do que vè.
Da senhora, et do senhor
Quem jà conheçe o costume,
Sirvase bem do Ciume,
Porque he escravo de Amor.
[225] The word _desenganado_ (in Spanish _desengañado_) is not so happy an expression as the English _disenchanted_, or the German _entzauberte_. It is the word commonly used to designate one who is no longer enamoured. The _Desengaño_ (the _disenchantment_ in affairs of love) is also employed by the Spanish poets as an allegorical character.
[226] See preceding vol. page 407.
[227] See page 171.
[228] Naõ estranheis ouvir rusticos filosofos e avisados Aldeaãs.--E assim, como na arte do pintar representaõ as cores differentes o natural de huma figura, e a forma della e substancia e attençaõ, porque foy figurada, assim o que nesta minha naõ parecer que representa o modo dos Pastores, attribui ao intento, que he, mostrar debaixo o seu barel a condição dos vicios e o sossejo das virtudes, &c.
[229] See page 20.
[230]
Mis señores romancistas
Poetas de Lusitania,
Que hurtastes las invenciones,
A la lengua Castellana.
Buelved ya vuestros papeles,
Entregadlos a la fama,
Que donde ay tan buenas plumas
No es razon que falten alas.
No veis que estan ya sin hojas
Los laureles de Castalia,
Que dana cada español
Romancista, una grinalda, &c.
[231]
No correremos tambien
El Alhambra, el Alpuxarra,
Do estan Daraxa y Celinda,
Adalifa y Celidaxa?
[232] See preceding vol. page 306.
[233] See preceding vol. page 49.
[234] The _Ribeiras_ are here the streams which flow into the Mondego. As, however, the word _ribeira_ also signifies a bank, the title of this unimportant romance may in translation be more conveniently expressed by the latter sense.
[235] The commencement of the tale may be transcribed here as a specimen. It is preceded by an introductory song:--
Se alguem chorando canta, assi cantava hum pastor à vista do Rio do Mondego, sentado sobre huma sepultura, cuja antiguidade a pezar do tempo, et da inveja descobria a fama entre as ruynas de huns derribados edificios na entrada de hum valle, a quem altos Cyprestes, et outras funebras plantas faziaõ com carregadas sombras morada eterna da tristeza. Corria o Rio alegre, et nunca tanto atras da fermosa Arethusa o namorado Alpheo. Agora com appressado curso, por se appartar das Ribeyras humildes, que o perseguem, mostrava seu furor na crespa escuma, et logo desfazendoa jà livre dellas hia mais vagoroso. Retratavaõse nelle (como em espelho) os frescos arvoredos, que de huma, e doutra parte o assombravaõ em cerrada espessura.
[236] Let, for example, the following verses be compared with similar passages in the works of Camoens and Rodriguez Lobo:--
Faz o tempo hum breve ensayo
Do bem, que em nacendo morre,
E mostrame quanto corre
Na ligeireza de hum rayo:
Passa o bem, e o tempo assi,
De hum, et doutro vivo ausente,
E vejo, porque o perdi,
Para lembrarme sòmente
Aquelle tempo, que vi.
Em quanto quiz a ventura,
O que meus olhos naõ vem,
Entaõ via sò meu bem,
Mas hoje quam pouco dura!
Faz o tempo o officio seu,
E o bem no mal, a que venho,
Larga experiencia deu,
Este bem he o que naõ tenho,
Que sò pude chamar meu.
[237] _Rebello_ is sometimes called _Rebelo_, and sometimes _Rabelo_. And, in like manner, in his tales the names of _Justin_ and _Leonidas_ are occasionally written _Gustino_ and _Leonitas_, The _Constante Florinda_ has been frequently printed. The edition which I have before me was published so recently as the year 1722. There have also been several editions of Rebello’s novels.
[238] In the preface he moralizes thus:--
Muytos servos há no Mundo, que sam servos do Mundo, os quais sò com elle tratam seus negocios, metidos em os bosques de cuydades mundanos, sustentando-se em os montes de pensamentos altivos: sem quererem tomar conselho com hum livro espiritual que lhes ensine o que devem fazer. Compadecido destes quis disfarçar exemplos, et moralidades com as roupas de historias humanas. Para que vindo buscar recreaçam, para o entendimento, em a elegancia das palavras, em o enredo das historias, em a curiosidade das sentenças, et em a liçaõ das fabulas, achem tambem e proveyto, que estam offerecendo, que he hum claro desengano das cousas do Mundo, et fiquem livres dos perigos, a que estaõ muy arriscados, cõ seus ruins conselhos.
[239] Thus, in describing melancholy, he with pompous gravity compares it to sea sickness:--
Assim como os que navegaõ sobre as ondas do mar que enjoande em hum navio, nem por se passarem a outro perdem a nauzea que os atormenta, porque naõ nasce do lugar, senaõ dos ruins humores que em si trazem levantados. Assim os tristes, et affligidos ainda que mudem o lugar, nem por isso deyxa a fortuna de os perseguir; porque naõ lhes nascem os males do lugar que deyxaõ, se naõ da fortuna que contra elles anda levantada.--_Part II. cap, 5._
[240] See preceding vol. p. 205.
[241] _Asia de Joaõ de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente._ The first edition of the first decade was published at Lisbon in the year 1553. The whole work has been frequently printed since that period.
[242] For example, (in _Decad 1. livr._ iii. _cap. 2._) Barros describes Columbus as visiting the King of Portugal with a malignant joy on his return from his expedition to America, and as acting the part of an empty boaster. But was the discoverer of America a braggart?
[243] The following is the commencement of the description of the city of Ormus, which before the discovery of the new passage by the Cape of Good Hope, was the mart for the merchandize of India in its progress to Alexandria:--
A cidade Ormuz estâ situada em huma pequena ilha chamada Gerum, que jaz quasi na garganta de dentro do estreito do mar Persio, taõ perto da costa de terra de Persia, que averâ de huma â outra tres leguoas, et dez da outra Arabia, et terà em roda pouco mais de tres leguoas: toda mui esteril, et a major parte huma maneira de sal, et enyofre sem naturalmente ter hum ramo ou herva verde. A cidade em si he mui magnifica em edificios, grossa em trato por ser huma escala, onde concorrem todalas mercadorias orientaes, et occidentaes a ella, et as que vem da Persia, Armenia, et Tartaria que lhe jazem ao Norte: de maneira, que naõ tendo a ilha em si cousa propria per carreto tem todalas estimadas do mundo. Porque atè aguoa, cousa taõ cõmum, tirando alguma de tres poços et cisternas, toda lhe vem da terra firme da Persia, della em vasilhas, et outra solta em barcas cõ toda hortaliça, verdura, fruta verde et sorodea que despende, que he em abastança: assi da comarca a que elles chamaõ Mogostaõ, como destas ilhas que tem por vinzinhas, Queixome, Larec, et outras com que a cidade he taõ vizosa et abastada, que dizem os moradores della, que o mundo he hum anel, et Ormuz huma pedra preciosa engastada nelle.--_Decada II. livr. ii. cap. 2._
[244] Of this an excellent example is afforded in the description of the perplexing situation in which the Portuguese were placed at the taking of the Indian town of Calecut, when confined in the narrow streets, and overpowered by the fatigues of the combat, they were in danger of being forced to yield to an enemy far weaker than themselves:--
E certo que era cousa digna de admiraçaõ, et pera se muito condoer de taõ triste caso, porque contemplando obra de seiscentos homens que seriaõ os nossos, entalados entre aquelles vallos: tanto sobrelevava o fervor do sol, et a poeira dos pés, et trabalho que a noite passada té aquelles oras tinhaõ sofrido, sobre toda a força do seu animo, que naõ se podiaõ defender de até otienta Naires, que pela estrada os perseguiaõ derribando poucos et poucos: et o que era maes miseravel, se de cima dos vallos lançavaõ naquelle cardume dos nossos hum zarguncho, huma seta, huma pedrada, nunca dava no chaõ, et qualquer que acurvava os pés de todos trilhando o acabavaõ de matar. Finalmente aqui dous, ali quatro, seis, oito, sempre foraõ caindo té que sairaõ daquella estreiteza do vallo ao largo da cidade: a qual ainda que ardia em fogo, menos sentiraõ o que nella andava, que aquella forno de morte, donde vinhaõ afogados, et cegos de sede et pó. E vendo neste largo quaõ poucos eraõ os imigos que os perseguiaõ fezeraõ rosto a elles: cõ que converterão parte da soltura que traziaõ, em fugir, et naõ em cometer como d’ante faciaõ.--_Dec. II. livr. 4. cap. 1._
[245] The Portuguese Public is introduced speaking, in order to represent in a forcible way the disapprobation with which the enterprizing spirit of the Infante Henry was at first regarded:--
Ora onde o Infante manda descobrir, he ja tanto dentro no fervor de sol, que de brancos que os homems sam, se la for algum de nós, ficará (se escapar) taõ negro como sam os Guineos vezinhos a esta quentura. Se ao Infante parece que como ora achou estas duas ilhas que o tem maes elevado neste descobrimento, póde achar outras terras hermas grossas et fertiles como dizem que ellas sam: terras et maninhos ha no Reyno pera romper, et a proveitar sem perigo de mar, nem despesas desordenadas. E maes temos exemptos contrarios a esta sua opiniaõ, porque os Reyes passados deste Reyno sempre dos Reynos alheos pera o seu trouxeraõ gente a este a fazer novas povoações: et elle quer levar os naturaes Portugueses a povoar terras hermas per tantos perigos, de mar, de fome et sede, como vemos que passam os que lá vam.--_Dec. I. Livr. i. cap. 4._
[246] He makes Antaõ Gonsalvez, a Portuguese admiral, thus address his inferior officers:--
Amigos, nós temos feito parte daquillo a que somos inviados, que ora carregar este navio: et dado que os servos muito mereçaõ em acabar os mandados de quem os invia, mayor louvor será se fizermos o que o Infante mais deseja, que he levarlhe alguma lingua desta terra. Porque a sua tençaõ neste descobrimento, naõ he a fim da mercadoria que levamos, mas buscar gente desta terra taõ remota da Igreja, et a trazer ao baptismo: et depois ter com elles communicaçaõ et commercio pera hõra et proveito do Reyno. E pois isto a todos he mui notorio, justa cousa me parece trabalharmos por levar algum dos moradores desta terra: porque a meu ver se Affonso Gonçalvez per esta comaria per onde este rio vem achou gente, buscandonos bem per força devemos achar alguma provoaçaõ, &c.--_Dec. I. livr. i. cap. 6._
[247] A continencia do seu vulto era assossegada, a palavra mança et constante no que dizia, et sempre eraõ castas et honestas: et esta religiaõ de honestidade guardou naõ somente em as obras, mas ainda nos vestidos, trajos de sua pessoa, et serviço de casa. Todas estas cousas procediaõ da limpeza de sua alma, porque se ere que foi virgem. Em seus trabalhos et paixões, era mui sofrido et senhor de si: et em ambas as fortunas humildoso, et taõ benigno em perdoar erros que lhe foi tachado. Teve grande memoria et concelho a cerca dos negocios: et muita authoridade pera os graves, et de muito peso.--_Dec. II. livr. i. cap. 16._
[248] This _Historia do descobrimento e da conquista da India pelos Portuguezes, feita por Fernaõ Lopez de Castanheda_, was on account of its historical merit reprinted with the old orthography at Lisbon, in the year 1797, in two octavo volumes.
[249] _Commentarios do grande Affonso d’Alboquerque, &c._ An elegant edition was published at Lisbon in 1774, in four octavo volumes. In order to understand this work the reader must not spare himself the pains of learning the maritime language of Portugal. The book will sufficiently repay this trifling labour.
[250] These celebrated Commentaries are written throughout nearly in the style of the following passage:--
Passadas todas estas cousas, mandou o grande Afonso Dalboquerque aos Capitães, que levassem suas amarras, e partio-se do porto de Adem a quatro dias do mes de Agosto, e com toda sua Armada foi á vista do cabo de Guardafum, e dali fizeram sua navegaçaõ á outra banda da terra, e afferrâram Diolocindi, e foram correndo toda a costa de longo, e chegáram a Diu, onde foram muito bem recebidos de Miliqueaz, e bem festejados de dadivas, que deo a todos os Capitães, e ali estave seis dias, e mandou concertar os bateis das náos, que vinham muito desbaratados; e como chegou, veio logo Miliqueaz velo á nào, e estiveram ambos praticando em cousas desapegadas.--_Parte IV. cap. 12._
[251] _Monarchia Lusitana, composta por Frey Bernardo de Brito, &c._ The edition with which I am acquainted is in two folio volumes. The first volume was printed in the convent of Alcobaça, in the year 1597, and the second by a bookseller of Lisbon, in 1609.
[252] See preceding vol. p. 315.
[253] In order to form a just notion of Brito’s rhetorical merit, it is necessary to peruse the second part of his work, in which he had no longer the opportunity of following the ancient writers; for example, his description of the final stroke of fate which visited the Visigoth King Roderick, who lost the decisive battle against the Arabs. He thus describes how the king in his retreat took refuge in the church of a deserted convent:--
Chegado el Rey a este lugar cõ desejo de achar nelle alguma consolaçaõ pera seu spiritu, encontrou materia de mayor lastima, et dobrado sentimento, por que os mõges atemorizados cõ a nova que chegara poucos dias antes et solicitos por salvar os ornamentos, et cousas sagradas, huns eraõ jà fugidos pera dentro de Merida, outros se retiraraõ pella terra dentro buscando guarida em outros conventos, et os menos aguardavaõ o fim do negocio dentro no mosteiro, desejando acabar a vida pella honra et defensão da Fé Catholica dentro naquelle santuario. Entrou el Rey na Igreja, et vendoa nua de ornamentos, et desempesada de Religiosos, se pos em oraçaõ com tanta dòr et angustia de coraçaõ, que desfeito em lagrimas, se naõ lembrava que podia ser ouvido de alguma pessoa, aquem o excesso dellas desse conhecimento de quem podia ser, et como a fraqueza de naõ ter comido alguns dias, o desfalecimento do cerebro, pella falta do sono, et o quebrantamento de caminhar a pé, lhe tivessem as forças debilitadas, se lhe cerraraõ os spiritus, de maneira, que ficou em terra com hum desmayo em que esteve privado dos sentidos a te o achar hum monge antigo, &c.--_Livr. VII. cap. 3._
The facility of the accentuation in these long sentences is particularly remarkable.
[254] Me deziam, que--me livrara da _grosseria_ o ruim methodo de historiar da Portugueza.
[255] Tendo dentro de si _filhos tam ingratos_, que a modo de _venenosas viboras_ lhe rasgaô a reputaçaõ.
[256] Se alguma cousa me lastima, he ver, que a pouca noticia que della (a lingoa Portugueza) tenho, me fara levar o estilo de historia menos lustroso do que podera ir, sendo composto porque fizera seu fundamento na elegancia e fermosura da pratica mais que na verdade e certeza do que se conta; o que se naõ permitte em homem que professa nome de historiador authentico.--_Prologo, p. 4._
[257] With regard to these portraits, it may be observed that they are not well engraved; but according to the assurance of Brito, they were faithfully copied from the best likenesses extant. It would not be easy to find a portrait of Philip II. of Spain, who is here described as the eighteenth King of Portugal, which so decidedly expresses the character of that austere despot.
[258] I am acquainted with this work only by means of the Spanish translation which is entitled:--_Historia oriental de las peregrinaciones de Fernan Mendez Pinto, Portuguez. Madr. 1620. fol._
[259] They are noticed by Barbosa Machado.
[260] These works are more particularly noticed at the commencement of the preceding volume, page 14.
[261] See preceding vol. page 431.
[262] A writer of Spanish verse, and the author of several approved Spanish comedies.
[263] _Jacinto Cordero_ (according to the Spanish orthography and pronunciation of _Cordeiro_), _Elogio de poetas Lusitanos_. Lisb. 1631. Those who wish to study the progress of Portuguese poetry, will derive no information from this book.
[264] A sufficient acquaintance with the more celebrated of these Portuguese sonneteers, may be acquired from the collection of Portuguese poems, edited by Matthias Pereira da Sylva, under the following fantastical title:--_A Fenix renascida, ou Obras poeticas dos melhores engenhos Portugueses_ (though only those of the seventeenth century are included). _Segunda ediçaõ. Lisb._ 1746, in 3 volumes octavo. Not one half of this collection is worth perusing.
[265] See preceding vol. page 428.
[266] Barbosa Machado notices this polygraphic author with nearly as much enthusiasm as the Spaniards speak of Lope de Vega. He even asserts, that, in point of style Faria y Sousa may be placed on a parallel with the most distinguished of the ancient writers.
[267] They are included in the first and fourth volumes of his _Fuente de Aganippe_. (Madrid, 1446).
[268] The following sonnet will afford a specimen of these compositions. It is not indeed totally free from affected phrases; for example, the sixth line. But that line is sufficiently atoned for by the rest:--
Ninfas, Ninfas, do prado, tam fermosas
que nelle cada qual mil flores gera,
de que se tece a humana Primavera
com cores, como bellas, deleitosas;
Bellezas, ô Bellezas luminosas,
_que sois abono da constante esfera_:
que todas me acudisseys, bem quisera,
com vossas luzes, e com vossas rosas.
De todas me, trazey maes abundantes,
porque me importa neste bello dia
a porta ornar da minha Albania bella.
Mas vôs, de vosso culto vigilantes,
o adorno me negays, que eu pretendia,
porque bellas nam soys diante della.
[269]
Cante de Amor os puntas penetrantes,
Que de huns divinos olhos despedidas,
Despois de dadas immortaes feridas
Sairam do meu peito triumfantes; &c.
[270] This singular declamation is as follows:--
Vos Satiros biformes que lavando
neste ribeiro estays o pè ligeiro,
deixay, deixay, o limpido ribeiro,
que em profano exercicio ides turbando.
Porque _os aureos cabellos vem mostrando_
_sobre essa superficie o meu Luzeiro_,
que là _no fundo_ della he _Sol primeiro_,
a donde _o mesmo Sol_ està _cegando_.
Deixayme sô na liquida corrente;
porque nam sairà do vitreo seyo,
se acompanhado aqui de alguem me sente.
Assi Menalio disse de Amor cheyo:
e o lavor do lavar a torpe Gente
nam deixou nunca, nem Albania veyo.
[271]
Dizerte a minha pena me recrea;
Porem na boca sinto huma amargura,
De que he somente conhecida cura
A tua numerosa e doce vea; &c.
[272] For example, the following reminiscential sonnet, which is disfigured only by the concluding phrase:--
Sempre que torno a ver o bello prado
onde primeira vez a soberana
divindade encontrey con forma humana,
ou humana esplendor deificado:
E me acordo do talhe delicado,
do riso donde ambrosia, e nectar mana,
da fala, que dà vida quando engana,
da branca maõ, e do cristal rosado:
Do meneo suave, que fazia
crer que de brando Zefiro tocada
a Primavera toda se movia;
De novo torno a ver a Alma abrasada;
e em desejar sômente aquelle dia
vejo a Gloria Real toda cifrada.
[273] For instance the following:--
Passáram ja por mim loucos verdores
do fresco Abril da humana vaidade;
Primavera tam fora da verdade,
que as flores sam engano, o fruto errores.
Passáram ja por mim inuteys flores,
o Veraõ passou jà da ardente idade:
prazer acomodado à mocidade;
veneno da razam em bellas cores.
Bem creo que estou dellas retirado;
mas nam sey se de assaltos vaõs, tiranos,
que tem o entendimento ao jugo atado.
Porque mal me asseguram meus enganos,
que o fruto destas flores he passado,
se os costumes nam fogem como os annos.
[274] They are contained in the first and fourth volumes of the _Fuente de Aganippe_, see page 279.
[275] No es dar liberdad de consciencia, para introducir siempre escorias y licencias, sino advertir que _un hombre grande puede hazer tal vez lo que quisiere, y es gravissime crimen el pedirlo cuenta_; y mas, si se lo pide algun Pigmeo en estudios y en juizio.
[276] Lo que ella (la poesia) _solamente_ quiere,--es invencion, imagenes, affectos y _alarde de todas sciencias_.--And yet he has declared shortly before, that learning is not essential to poetry. It is not worth while to transcribe in the author’s own words, the other critical judgments here quoted.
[277] Barbaso Machado, in his Lexicon of learned men, expressly says of Faria e Sousa, that he was indebted to his extraordinary talents and knowledge _de ser venerado por Oraculo_.
[278] Those who understand, or imagine they understand Portuguese, may try how far it is practicable to translate verbally the commencement of one of these eclogues:--
_Roque._ He gram coisa bergonha ter no rosto;
a o tella nelle antrambos ugalmente,
agora a hum põto aqui ambos ha posto
A poys tàmen dos dous algó nõ mente
digeme, ò certo, se de mim Martinho
mal falou honte a aquella boa gente.
_Afons._ Se a todos lhe esquece o Samsodorninho,
como lhes lembrarias? Sò tratàmos
de dar ós bolos fim, a fim o binho.
Em tè, maes nom querer todos folgamos.
[279] The commentary on the Lusiad is published separately. It is entitled, _Lusiadas de Luis de Camoens, &c. commentadas por Manuel de Faria y Sousa_. Madr. 1639, 4 parts, in 2 folio volumes. The commentary on the miscellaneous poems of Camoens is entitled: _Rimas varias de Luis de Camoens, &c. commentadas por Man. de Faria y Sousa_. Lisb. 1685, in 7 small folio volumes. The latter, therefore, was not printed until thirty-six years after the death of Faria e Sousa.
[280] An abundant collection of comic sonnets, _decimas_, _canções_ and epigrams by Noronha, may be found in the fifth volume of the _Fenix renascida_, already quoted.
[281] A specimen shall be given here, little worthy as such fooleries are of perusal. The sonnet is written to rhymed endings (_com consoantes forçados_.)
Naõ socegue eu mais, que hum bonifrate,
De agoa sobre mim se vase hum pote,
As galas, que eu vestir, sejaõ picote,
Com sede me dem agua em açafate;
Se jogar o xadrez, me dem hum mate,
E jogando às trezentas hum capote,
Faltemme consoantes para hum mote,
E sem o ser me tenhaõ por orate;
Os licores, que beba, sejaõ mornos,
Os manjares, que coma, sejaõ frios,
Naõ passee mais ruo, que a dos fornos;
E para minhas chagas saltem fios,
Na cabeça por plumas traga cornos,
Se meus olhos por ti mais forem rios.
[282] The language of this sonnet will enable the reader to form a right idea of the merits of the author, who was, however, much admired in the age in which he lived!
Desdourem-se as areas do Pactolo,
Turvem-se as claras aguas do Canópo,
O bebado de Bacco entorne o copo,
Rache a guitarra o franchinote Apollo.
Desencache-se o Ceo de polo a polo,
A douda Venus morra, e o seu cachopo,
Em fim pereça tudo quanto topo,
Que a Lereno matou o villaõ de Eolo.
Por Jesu Christo se entre maõs tomara
Este villaõ ruim, o Rei do vento,
Com hum vergalho de boy o debreara.
Por S. Pedro do Ceo, que hum momento
A miseravel alma lhe mandara
C’um piparote ao reino do tormento.
[283] The _Obras poeticas_ of Barbosa Bacellar were printed at Lisbon in the year 1716. The greater part consists of poems which are also dispersed through the _Fenix renascida_.
[284] For instance, the following to a nightingale in a cage; a favourite theme with the Portuguese sonneteers:--
Ave gentil cativa, que os accentos
Inda dobras com tanta suavidade,
Como quando gozavas liberdade,
Sendo do cãpo Amfiaõ, Orfeo dos ventos:
Da vida livre os doces pensamentos
Perdestes junto à clara suavidade
De hum ribeirinho, que com falsidade
Grilhões guardava a teus cõtentamentos.
Eu tambem desse modo fuy cativo,
Que amor me tinha os laços emboscados
Na luz de huns claros olhos excellentes.
Mas tu vives alegre, eu triste vivo,
Com que somos conformes nos estados,
E somos na ventura diferentes.
[285] The Portuguese _Saudades_ must by no means be confounded with the Spanish _Soledades_ in the style of Gongora. (See preceding vol. page 435). In the Portuguese word _Saudade_ are singularly blended the significations of _Saùde_ (a salutation), and _Soledad_ (the Spanish word for solitude). Hence also the untranslatable adjective _Saudoso_.
[286] In these _Saudades_ Aonio thus discourses with flowers. He turns from one to another, and finds in each a peculiar sympathy with himself:--
Cada flor o detinha,
E a cada flor attento
Sequellas inferia ao seu tormento,
Huma rosa encarnada
Com melindres de bella.
Com presumpções de estrella
Fazia aqui galante
Ostentaçaõ de purpura brilhante:
Aonio commovido
Lhe disse eternecido:
Ay fermosa memoria,
Retrato de huma gloria,
Que possui taõ breve,
Nevoa ao Sol, fumo ao ar, ao vento neve,
Mal lograda fermosa,
Rosa defunta, quando a penas rosa.
Em huma mata verde
Hum jasmim odorifero nevava,
E derramando cheiro
Ao vento suavizava,
Quando Aonio passando,
As vezes a cabeça meneando,
Disse comsigo: Ah triste!
Quanto ha jà que me falta o brando alento
Daquella voz branda o doce acento,
Que alegre a meus ouvidos respirava,
Com que a vida animava,
Fazendo verdadeiras docemente
Mentiras do Oriente.
But these beautiful plays of fancy are protracted to a tedious length.
[287]
Ouvi de hum pastor triste
De _injusto_ amor o sentimento _justo_.
[288] De huma _alma morta_ o _sentimento vivo_.
[289]
Porem vive a memoria
_Na bronze de alma_.
[290] Some are included in the second volume of the _Fenix renascida_, and among them are the _Saudades de Albano_.
[291] These comic tales and other poems by Freire de Andrada, are printed in the third volume of the _Fenix renascida_.
[292]
Naõ mais, Plataõ, cançada fantasia,
Que me tem cõ tres onças de discreto
Mais carregado jà, que huma elegia,
E mais sentencioso, que hum Soneto:
Levar á praça quero a livraria,
Vender da Instituta até o Decreto.
Com os Juristas Vinnios, e Donelos,
E os Letrados do tempo Machavelos.
Livros a meus estudos sempre ingratos,
Hoje vossa liçaõ deixo importuna;
Passome ao bairro jà dos mentecatos,
Só por avisinhar com a fortuna:
Cuidey fosseis a meus trabalhos gratos,
E do minhas paredes a coluna,
Fiey muito no tempo, andey errado;
Porque tratey o Mundo como honrado, &c.
[293]
Ja para as Musas faço outra mudança,
Divertindo entre burlas tanto engano,
Que por ver, se de gosto o lança hum dia,
Joga com dados falsos a alegria.
[294]
Os olhos de atrevidos ou de honrados
Naõ conhecem no Ceo luzes mais bellas.
Piratos sam do Sol, ja rebellados,
Outro Flandes emfim contra as estrellas.
[295]
Corada a boca està fazendo afrontes
As rosas que secar de inveja vemos.
[296]
Se he que me pedem campo, estou rendido,
Pois em dous olhos vejo o Sol partido.
[297]
Quem a casa destroe, aonde mora?
Muito mas o altar, onde se adora.
[298]
Naõ das fruto às aveças, comodo errado,
As lagrimas primeiro que o peccado.
[299]
Que o Demonio da carne acobardado
Foge da _Cruz_, e chega-se ao _Cruzado_.
The word _Cruzado_, which is the name of a Portuguese coin with the impression of a cross, may likewise signify a person who is crossed, or who bears the sign of the cross, or the cross of a military order.
[300]
Diz, que nasceo guerreiro--
No signo de _Leão_, que he deshumano.
Eu sey, que no do _Tauro_, e naõ me engano.
[301]
E se pecca no quinto mandamento,
Somente he por palavra, ou pensamento.
[302]
Tinha Narcisso assomos de soldado
Animados do tinto, e do palhete,
Porém este Annibal, este alentado
Melhor despeja os frascos, que o mosquete.
Sobremesa Leaõ com rosto irado,
O campo da batalha era o bofete,
Bizarrias nos traz já muito usadas.
Que ergueo sempre copas, joga espadas.
Meteo maõ trinta vezes na estacada,
Nunca ferio ninguem co’a columbrina,
Todos lhe sabem a cõpleiçaõ da espada,
Que he colerica sim, mas naõ sanguina.
Jà mais trouxe a tizona ensanguentada,
Sempre temava seca a disciplina,
Que he valente opilado alguem presume,
Por naõ trazer na espada o seu costume; &c.
[303] There is only sufficient space for a short specimen of this prattling nonsense:--
Leva de amor privilegios
E de Diana licenças
Para castigo de brutos,
Para encanto de bellezas.
Contra as bellezas dos bosques,
E os moradores das penhas
Dos olhos fulmina rayos,
E das maõs despede settas.
Lastima, e horror a hum tempo
Monte, e valle representa,
Naquelle gemendo brutos,
Neste suspirando Deosas; &c.
[304] Even this sonnet is inserted in the _Fenix renascida_ as a sample of excellence:--
Naõ viste, ó Licio, o ar de horror vestido
Arrastar negras sombras enlutado?
Melancolico o Ceo como enfiado
No regaço da noite adormecido?
Naõ viste, que de luz destituido
Deo ao orbe celeste esse cuidado
O Sol, paludamente agonizado,
De opposiçaõ maligna comprehendido?
Pois agora verás no mal presente
Pela morte de Filis toda a esfera
Padecer alta dor, grave accidente.
Que se em fim nesta ordem, que se altera,
Por hum Sol eclipsado isto se sente
Por hum Sol já defunto que se espera?
[305] The collection is entitled, _Parnasso Lusitano de divinos e humanos versos_, Lisb. 1733, in two vols. octavo. Several of Violante do Ceo’s poems, both Portuguese and Spanish, particularly sonnets, are included in the first volume of the _Fenix renascida_.
[306] The whole sonnet is here subjoined. Were it not for the celebrity of the authoress, it would scarcely be worth while to augment this collection of examples by such a specimen:--
Musas, que no jardim do Rey do dia
Soltando a doce voz, prendeis o vento:
Deidades, que admirando o pensamento
As flores augmentais, que Apollo cria;
Deixay, deixay do Sol a companhia,
Que fazendo invejoso o Firmamento
Huma Lua, que he Sol, e que he portento,
Hum jardim vos fabrica de harmonia.
E porque naõ cuideis que tal ventura
Póde pagar tributo á variedade
Pelo que tem de Lua a luz mais pura:
Sabey que por mercé da divinidade,
Este jardim canoro se assegura
Com o muro immortal da eternidade.
[307]
Si fue _para tal Sol_ el mundo Occaso,
Tambien es _de tal Sol_ el ciel Oriente.
[308]
Tu que Arraes deves ser da vital barca
Que navega no mar do mal tyranno,
Novo Galeno, Apollo Lusitano,
Medico em fim do Portuguez Monarca.
[309] The following is a patriotic sonnet in question and answer. Violante do Ceo could not easily have paid a more affected compliment to King John IV.
Que logras Portugal? Hum rey perfeito.
Quem o cõstituîo? Sacra piedade.
Que alcançaste com elle? A liberdade.
Que liberdade tens? Serlhe sujeito.
Que tens na sujeição? Hõra, e proveito.
Que he o novo Rey? Quasi deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deos feito.
Que eras antes delle? Hum labyrinto.
Que te julgas agora? Hum firmamento.
Temes alguem? Naõ temo a mesma Parca.
Sentes alguma pena? Huma só sinto.
Qual he? Naõ ser hum mundo, ou naõ ser cento,
Para ser mais capaz de tal Monarca.
[310] The five escutcheons which constitute the Portuguese arms.
[311] This interminable epistle commences thus:--
Já que haveis de surcar as crystalinas
Aguas da Foz do Tejo áquellas prayas,
Que o mundo vio ao tremolar das Quinas.
Em quanto as vossas voadoras fayas
As azas desfraldando, levaõ ao vento,
Seguindo as suas prateadas rayas;
Ouvi o rouco som deste instrumento,
Que inda que toca, os pontos desentoa,
Que he differente a voz do pensamento.
Naõ julgueis o que he pelo que soa,
Que se na citra do papel a penna
Toca suave, rijamente atroa; &c.
[312] It is contained in the second vol. of the _Fenix renascida_.
[313] The fame of this Bahia must at last have totally died away. Barbosa Machado does not mention him. The editor of the _Fenix renascida_ seems, however, to have entertained a particular partiality for this rhymester; for Bahia’s witticisms occupy a considerable portion of that work.
[314] The following octave, which forms the commencement of Bahia’s Polyphemus, may be quoted as the last specimen of this monstrous style. These lines were afterwards parodied:--
Donde Neptuno cõ grilhões de argento
Prende o robusto pé do Lilibeo,
Que ao Ceo dá gosto, á terra dá tormento,
Gloria de Jove, inferno de Tyfeo:
Entre hum campo, que tem no monte assento,
Colosso o monte, o campo Colysseo,
Cerra hum penhasco huma caverna fria,
Donde a noite naõ sahe, nem entre o dia.
[315] Such humorous descriptions as the following, occur not unfrequently in Bahia’s long romances of travels:--
As mininas dos meus olhos
Choravaõ como mininas
Pedaços d’alma, que entaõ
De cantaro parecia.
Perlas netas naõ choravaõ,
Que como saõ taõ tenrinhas,
Inda naõ tem perlas netas,
A penas tem perlas filhas.
Dava-me a agua pela barba,
E creyo se affogaria,
O meu rosto, se o meu rosto
Naõ nadára com bexigas.
Mas a fim, que o dia, e hora
Da jornada me esquecia,
Porque sobre ingenium tardum
Sou tambem memoria infirma; &c.
[316] This lyric eulogy is thus superscribed:--
_Ao serenissimo Rey D. Affonso, quando mandou alistar por soldado a Santo Antonio de Lisboa._
Bahia advises his sovereign to suspend the further levying of troops. He says:--
Deixay mais listas, pois jà
Santo Antonio se alistou,
Que como suo pay livrou,
Sua patria livrarà.
[317] Barbosa Machado notices him in an ostentatious manner, and enumerates all his writings.
[318] In the following the idea, though false in itself, is interestingly expressed. The poet asserts, that he who tells his pain, suffers more than he who conceals it.
Na queixa o sentimento se engrãdece,
No silencio se afrouxa o sentimento,
Que se o lembrar da dor dobra o tormento,
Quem suffoca o pezar, menos padece.
No silencio talvez a dor se esquece;
Na voz naõ póde ter esquecimento,
Com que a dor no silencio perde o alento,
Quando a magoa na queixa reverdece.
Se a memoria do mal dobra o penoso,
E quem o diz desperta essa memoria,
Mais sente, que quem dentro a pena feixa;
Porque este no silencio tem repouso,
E aquelle augmenta a dor, se a faz notoria,
Pois renova o pezar, quando se queixa.
[319] The following sonnet, which is poetically conceived and executed shall serve as an example. It is addressed to a laurel tree against which a sun-flower reclines:--
Aqui tens a fineza bem nascida,
Se aqui tens Febo a queixa bem fundada,
Pois te segue huma flor enamorada,
Se te foge huma planta endurecida.
Nasce huma Clicie de attençaõ vestida,
Junto a huma Dafne de aspereza armada,
Que onde a belleza blasonou de amada,
Naõ se queixe a belleza de offendida.
Eu amo, e meu amor nada consegue,
E porque de esperanças me despoje,
O que me desagrada me persegue:
Oh como estamos differentes hoje,
Que a ti te foge o tronco, a flor te segue,
A mim me segue o tronco, a flor me foge.
[320] His works have been with great veneration preserved by different collectors, and were published by Domingos Carneiro, under the title of _Poesias varias da Andre Nunes da Sylva, recolhidas, &c._ Lisb. 1671, in one vol. octavo, dedicated to the author.
[321] The following sonnet on the catholic worship of the cross may serve as a specimen:--
Se em golfo de sereas proceloso,
Empenho repetido do cuidado,
O sabio Grego, ao duro Mastro, atado
âs Sereas escapa cauteloso.
Eu, no mar deste mundo tormentoso
De Sirtes et Sereas povoado,
â vossa Cruz, Senhor, sempre abraçado
Os perigos escape venturoso.
Oh livraime, meu Deos, de tanto astuto
Laberintho, de tanto cego encanto,
Para que colha desta planta o fruto;
Que he justo, doce Amor, em risco tanto,
Se salva a Ulisses hum madeiro bruto,
Que a mim me salve este madeiro Santo.
[322]
O tumulo de Isabella,
_Do firmamento flor, do campo estrella_.
And then again:--
Muzico Rouxinol, _joga animada_--
Es _Orpheo aos sentidos, flor á vista_.
[323] The following is a stanza of one of his patriotic odes:--
Suspendese confuso o Castelhano
De ver de Portugal o brio ouzado,
E guarnecendo a praça, troca ufana
O trofeo em cuidado;
Retirarse procura,
Porem o Luzo altivo
A batalha o provoca vingativo;
A hum monte se encomenda cautelozo;
Azas o Luzo veste bellicozo,
Hum comete feroz, outro reziste,
Este se anima, aquelle cahe por terra,
Tudo he mal, tudo he pena, tudo he guerra,
Que neste duro empenho de Mavorte
Reina a ira, arde o fogo, impéra a morte.
[324] Besides the _Fenix renascida_, which contains an account of most of the Portuguese sonneteers of the seventeenth century, there is a later, but upon the whole a much worse collection of the same sort, which comprises only two volumes, though it extends beyond the close of the eighteenth century. It is entitled:--_Eccos que o clarim da Fama dà; Postilhaõ de Apollo, &c._ (Echos which resound from the trumpet of Fame, or the Postillion of Apollo.) The title is still longer, and the remainder is in still worse taste. The collection was published at Lisbon in the year 1761.
[325] _Retiro de cuidados, e vida de Carlos e Rosaura, composto pelo Padre Matheus Ribeyro, &c._ Lisb. 1688. 4 parts in 2 vol. oct.
[326] _Seram politico, abuso emendado, &c. por Felix da Castanheira Turacem._ Lisb. 1704, in 4to. Some of the certificates of the Censors, which are printed with this work, are dated in 1695. In old Portuguese the word _Politico_, signifies all that belongs to polite manners. Hence Rodriguez Lobo’s works are entitled, _Obras politicas_, see page 227. _Seram_ or _seraõ_ properly signifies the place where an evening party, for some period, regularly assembles.--Felix de Castanheira’s name does not occur in Machado’s dictionary of learned men.
[327] Escrevo entre o rasteiro, et o empolado, que saõ o Scilla, et Charibdes no vasto mar da locuçaõ: algumas vezes me detenho a fazer aquada no esprayado da digressão; mas faço quanto posso por naõ perder de vista o difficil porto da clareza; com alguma me vou explicando, _sed libera nos à metaphora_.
[328] The following passage, which will serve as an example, is the description of the fair Isabella, an intelligent young lady, who sustains a principal character in these evening parties.
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History of Spanish and Portuguese Literature (Vol 2 of 2)Chapter XVI: Conclusion (3)
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