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Chapter D: Manuel De Portugal (1)

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[Sidenote: c. 1520-1606]

_113. Soneto_

Apetece minha alma a fonte viva
no estio de amor, em sesta ardente,
sequiosa se lança á gram corrente
da formosura que de vos deriva.
Cuidando de amansar a sede estiva,
quanto mais d’ amor beve é mais vehemente:
nunca se acabará este acidente,
que arde amor na minha alma em cousa viva.
Nem resiste ao ardor nem se consume,
porque ela é imortal, ele benigno,
nele deleita a dor, dá gosto a pena;
se imagina passar raio divino
deseja a alma abrasar-se no seu lume,
tal é do que em si esconde o bem que acena.

LUIS DE CAMÕES

[Sidenote: 1524?-1580]

_114. Descalça vai para a fonte_

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura,
vai formosa e não segura.

Voltas

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura,
vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro entrançado,
fita de cor de encarnado,
tam linda que o mundo espanta;
chove nela graça tanta
que dá graça á formosura,
vai formosa e não segura.

_115. A uma senhora resando_

Peço-vos que me digais
as orações que resastes,
se são polos que matastes,
se por vos que assi matais?
Se são por vos são perdidas,
que qual será a oração
que seja satisfação,
senhora, de tantas vidas?

Que se vedes quantos vem
a só vida vos pedir,
como vos ha Deus de ouvir
se vos não ouvis ninguem?
Não podeis ser perdoada
com mãos a matar tam prontas,
que se numa trazeis contas
na outra trazeis espada.

Se dizeis que encomendando
os que matastes andais,
se resais per quem matais
para que matais resando?
Que se na força do orar
levantais as mãos aos ceos
não as ergueis para Deus,
erguei-las para matar.

E quando os olhos cerrais,
toda enlevada na fe,
cerram-se os de quem vos ve
para nunca verem mais.
Pois se assi forem tratados
os que vos vem quando orais,
essas horas que resais
são as horas dos finados.

Pois logo, se sois servida
que tantos mortos não sejam,
nam reseis onde vos vejam
ou vede para dar vida:
ou se quereis escusar
estes males que causastes,
resucitai quem matastes,
não tereis por quem resar.

_116. Vida da minha alma_

Vida da minha alma,
não vos posso ver:
isto não é vida
para se sofrer.

Voltas

Quando vos eu via
esse bem lograva,
a vida estimava
pois entam vivia;
porque vos servia
só para vos ver.
Ja que vos não vejo
para que é viver?

Vivo sem razão,
porque em minha dor
não a pos amor,
que inimigos são.
Mui grande traição
me obriga a fazer
que viva, senhora,
sem vos poder ver.

Não me atrevo ja,
minha tam querida,
a chamar-vos vida,
porque a tenho má:
ninguem cuidará
que isto pode ser,
sendo-me vos vida,
não poder viver.

_117. Endechas_

Vai o bem fugindo,
crece o mal com os anos,
vão-se descobrindo
com o tempo os enganos.
Amor e alegria
menos tempo dura,
triste de quem fia
nos bens da ventura!
Bem sem fundamento
tem certa a mudança,
certo o sentimento
na dor da lembrança.
Quem vive contente
viva receoso,
mal que se não sente
é mais perigoso.
Quem males sentiu
saiba ja temer
e pelo que viu
julgue o que ha de ser.
Alegre vivia,
triste vivo agora:
chora a alma de dia,
e de noite chora.
Confesso os enganos
de meu pensamento:
bem de tantos anos
foi-se num momento.
Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.
A luz do sol pura
só a vos se negue!
Seja noite escura,
nunca a manhã chegue!
O campo floreça,
murmurem as aguas,
tudo me entristeça,
creçam minhas maguas!
Quisera mostrar
o mal que padeço:
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.
Em tristes cuidados
passo a triste vida:
cuidados cansados,
vida aborrecida!
Nunca pude crer
o que agora creio:
chegou-me o prazer
do mal que me veio.
Ah ventura minha,
como me negaste!
um só bem que tinha
porque m’ o roubaste?
Triste fantasia,
quanta cousa guarda!
Quem ja visse o dia
que tanto lhe tarda!
Nesta vida cega
nada permanece,
o que inda não chega
ja desaparece.
Qualquer esperança
foge como o vento:
tudo faz mudança
salvo meu tormento.
Amor cego e triste,
quem o tem padece:
mal quem lhe resiste,
mal quem lhe obedece!
No meu mal esquivo
sei como amor trata,
e pois nele vivo
nenhum amor mata.

_118. A uma cativa chamada Barbara_

Aquela cativa
que me tem cativo,
porque nela vivo
ja não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos
que para meus olhos
fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
nem no ceo estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular!
Olhos sossegados,
pretos e cansados
mas não de matar!
Uma graça viva
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos,
Pretidão de amor!
Tam doce a figura
que a neve lhe jura
que trocara a cor!
Leda mansidão
que o siso acompanha:
bem parece estranha,
mas barbara não.
Presença serena
que a tormenta amanha,
nela enfim descansa
toda minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo
e pois nela vivo
é força que viva!

_119. Babel e Sião_

Sobolos rios que vão
por Babilonia me achei,
onde sentado chorei
as lembranças de Sião
e quanto nele passei.
Ali o rio corrente
de meus olhos foi manado,
e tudo bem comparado:
Babilonia ao mal presente,
Sião ao tempo passado.
Ali lembranças contentes
na alma se representaram,
e minhas cousas ausentes
se fizeram tam presentes
como se nunca passaram.
Ali depois de acordado,
com o rosto banhado em agua,
deste sonho imaginado,
vi que todo o bem passado
nam é gosto mas é magua.
E vi que todos os danos
se causavam das mudanças,
e as mudanças dos anos,
onde vi quantos enganos
faz o tempo ás esperanças.
Ali vi o maior bem
quam pouco espaço que dura,
o mal quam depressa vem;
e quam triste estado tem
quem se fia da ventura.
Vi aquilo que mais val,
que entam se entende milhor
quando mais perdido for;
vi ao bem suceder o mal,
o ao mal muito pior.
E vi com muito trabalho
comprar arrependimento,
vi nenhum contentamento;
e vejo-me a mi que espalho
tristes palavras ao vento.
Bem são rios estas aguas
com que banho este papel,
bem parece ser cruel
variedade de maguas
e confusão de Babel.
Como homem por exemplo
dos trances em que se achou,
depois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou;
assi, depois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os orgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: Musica amada,
deixo-vos neste arvoredo
á memoria consagrada.
Frauta minha que tangendo
os montes fazieis vir
para onde estaveis, correndo,
e as aguas que iam decendo
tornavam logo a subir.
Jamais vos nam ouvirão
os tigres que se amansavam,
e as ovelhas que pastavam
das ervas se fartarão,
que por vos ouvir deixavam.
Ja não fareis docemente
em rosas tornar abrolhos
na ribeira florecente,
nem poreis freo á corrente,
e mais se for dos meus olhos.
Não movereis a espessura
nem podereis ja trazer
atras vos a fonte pura,
pois não podestes mover
desconcertos da ventura.
Ficareis oferecida
á fama que sempre vela,
frauta de mim tam querida:
porque mudando-se a vida
se mudam os gostos dela.
Acha a tenra mocidade
prazeres acomodados
e logo a maior idade
ja sente por pouquidade
aqueles gostos passados.
Um gosto que hoje se alcança
amanhã ja o não vejo:
assi nos traz a mudança
d’ esperança em esperança
e de desejo em desejo.
Mas em vida tam escassa
que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
que quanto da vida passa
está recitando a morte.
Mas deixar nesta espessura
o canto da mocidade:
nam cuide a gente futura
que será obra da idade
o que é força da ventura.
Que idade, tempo e espanto
de ver quam ligeiro passe
nunca em mim poderam tanto
que, posto que deixo o canto,
a causa dele deixasse.
Mas em tristezas e nojos,
em gosto e contentamento,
por sol, por neve, por vento,
«tendré presente a los ojos
por quien muero tan contento.»
Orgãos e frauta deixava,
despojo meu tam querido,
no salgueiro que ali estava,
que para trofeo ficava
de quem me tinha vencido.
Mas lembranças de afeição
que ali cativo me tinha
me preguntaram entam
que era da musica minha
que eu cantava em Sião:
Que foi d’ aquele cantar
das gentes tam celebrado?
Porque o deixava de usar,
pois sempre ajuda a passar
qualquer trabalho passado?
Canta o caminhante ledo
no caminho trabalhoso
por entre o espesso arvoredo,
e de noite o temeroso
cantando refrea o medo.
Canta o preso docemente,
os duros grilhões tocando,
canta o segador contente,
e o trabalhador cantando
o trabalho menos sente.
Eu que estas cousas senti
na alma de maguas tam chea.
Como dirá, respondi,
quem alheo está de si
doce canto em terra alhea?
Como poderá cantar
quem em choro banha o peito?
Porque, se quem trabalhar
canta por menos cansar,
eu só descansos engeito.
Que não parece razão
nem seria cousa idonea
por abrandar a paixão
que cantasse em Babilonia
as cantigas de Sião.
Que quando a muita graveza
da saudade quebrante
esta vital fortaleza,
antes morra de tristeza
que por abrandâ-la cante.
Que se o fino pensamento
só na tristeza consiste
não tenho medo ao tormento:
que morrer de puro triste
que maior contentamento?
Nem na frauta cantarei
o que passo e passei ja
nem menos o escreverei:
porque a pena cansará
e eu não descansarei.
Que se vida tam pequena
se acrecenta em terra estranha
e se amor assi o ordena,
razão é que canse a pena
de escrever pena tamanha.
Porem se para assentar
o que sente o coração
a pena ja me cansar
não canse para voar
a memoria em Sião!
Terra bem-aventurada,
se por algum movimento
d’ alma me fores tirada,
minha pena seja dada
a perpetuo esquecimento!
A pena deste desterro
que eu mais desejo esculpida
em pedra ou em duro ferro,
essa nunca seja ouvida
em castigo de meu erro!
E se eu cantar quiser
em Babilonia sujeito,
Hierusalem, sem te ver,
a voz quando a mover
se me congele no peito!
A minha lingua se apegue
ás fauces, pois te perdi,
se, em quanto viver assi,
houver tempo em que te negue
ou que me esqueça de ti!
Mas ó tu, terra de gloria,
se eu nunca vi tua essencia,
como me lembras na ausencia?
Não me lembras na memoria
senão na reminiscencia.
Que a alma é taboa rasa
que com a escrita doutrina
celeste tanto imagina
que voa da propria casa
e sobe á patria divina.
Não é logo a saudade
da terra onde naceu
a carne, mas é do ceo,
d’ aquela santa cidade
d’ onde est’ alma decendeu.
E aquela humana figura
que cá me pode alterar
não é quem se ha de buscar:
é raio de formosura
que só se deve de amar.
Que os olhos e a luz que atea
o fogo que cá sujeita,
não do sol nem da candea,
é sombra daquela idea
que em Deus está mais perfeita.
E os que cá me cativaram
são poderosos afeitos
que os corações tem sujeitos:
sofistas que me ensinaram
maos caminhos por direitos.
Destes o mando tirano
me obriga com desatino
a cantar ao som do dano
cantares de amor profano
por versos de amor divino.
Mas eu, lustrado com o santo
raio na terra de dor,
de confusões e de espanto,
como hei de cantar o canto
que só se deve ao Senhor?
Tanto pode o beneficio
da graça que dá saude
que ordena que a vida mude,
e o que eu tomei por vicio
me fez grao para a virtude;
e fez que este natural
amor que tanto se preza
suba da sombra ao real,
da particular beleza
para a beleza geral.
Fique logo pendurada,
ó frauta com que tangi,
a Hierusalem sagrada,
e tome a lira dourada
para só cantar de ti.
Não cativo e ferrolhado
na Babilonia infernal,
mas dos vicios desatado
e cá desta a ti levado,
patria minha natural!
E se eu mais der a cerviz
a mundanos acidentes,
duros, tiranos e urgentes,
risque-se quanto ja fiz
do gram livro dos viventes!
E tomando ja na mão
a lira santa e capaz
de outra mais alta invenção,
cale-se esta confusão,
cante-se a visão de paz!
Ouça-me o pastor e o rei,
retumbe este acento sagrado!
Mova-se no mundo espanto
que do que ja mal cantei
a palinodia canto.
A vos só me quero ir,
Senhor e gram Capitão
da alta torre de Sião,
á qual não posso subir
se me vos não dais a mão.
No gram dia singular
que na lira em douto som
Hierusalem celebrar,
lembrai-vos de castigar
os ruins filhos de Edom.
Aqueles que tintos vão
no pobre sangue inocente,
soberbos com o poder vão:
arrasa-los igualmente,
conheçam que humanos são!
E aquele poder tam duro
dos afectos com que venho,
que encendem alma e engenho,
que ja me entraram o muro
do livre arvitrio que tenho;
estes que tam furiosos
gritando vem a escalar-me,
maos espiritos danosos,
que querem como forçosos
do alicerce derribar-me;
derribai-os, fiquem sós,
de forças fracos, imbeles,
porque não podemos nos
nem com eles ir a vos
nem sem vos tirar-nos deles.
Não basta minha fraqueza
para me dar defensão,
se vos, santo Capitão,
nesta minha fortaleza
não puserdes guarnição.
E tu, ó carne que encantas,
filha de Babel tam fea,
toda de miseria chea,
que mil vezes te levantas
contra quem te senhorea,
beato só pode ser
quem com a ajuda celeste
contra ti prevalecer,
e lhe vier a fazer
o mal que lhe tu fizeste.
Quem com diciplina crua
se fere mais que uma vez;
cuja alma, de vicios nua,
faz nodoas na carne sua
que ja a carne na alma fez.
E beato quem tomar
seus pensamentos recentes
e em nacendo os afogar
por não virem a parar
em vicios graves e urgentes;
quem com eles logo der
na pedra do furor santo
e batendo os desfizer
na pedra que veio a ser
enfim cabeça do canto;
Quem logo quando imagina
nos vicios da carne má
os pensamentos declina
áquela carne divina
que na cruz esteve ja;
quem do vil contentamento
cá deste mundo visibil
quanto ao homem for possibil
passar logo o entendimento
para o mundo inteligivil;
ali achará alegria
em tudo perfeita e chea
de tam suave harmonia
que nem por pouca recrea
nem por sobeja enfastia;
ali verá tam profundo
misterio na suma alteza
que, vencida a natureza,
os mores faustos do mundo
julgue por maior baixeza.
Ó tu divino aposento,
minha patria singular,
se só com te imaginar
tanto sobe o entendimento,
que fará se em ti se achar?
Ditoso quem se partir
para ti, terra excelente,
tam justo e tam penitente
que depois de a ti subir
lá descanse eternamente!

_120. Soneto_

Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas aguas de cristal
que em vos os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;
silvestres montes, asperos penedos,
compostos de concerto desigual:
sabei que sem licença de meu mal
ja não podeis fazer meus olhos ledos.
E pois ja me não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas
nem aguas que correndo alegres vem:
semearei em vos lembranças tristes,
rogar-vos-hei com lagrimas saudosas
e nacerão saudades de meu bem.

_121. Soneto_

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança:
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades
diferentes em tudo da esperança:
do mal ficam as maguas na lembrança,
do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto
que ja coberta foi de neve fria,
e em mi converte em choro o doce canto;
e afora este mudar-se cada dia
outra mudança faz de mor mudança,
que nam se muda ja como soia.

_122. Amor_

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que doi e não se sente,
é um contentamento descontente,
é um dor que desatina sem doer;
é um não querer mais que bem querer,
é solitario andar entre a gente,
é um não contentar-se de contente,
é cuidar que se ganha em se perder;
é um estar-se preso por vontade,
é servir a quem vence o vencedor,
é um ter com quem nos mata lealdade:
mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tam contrario o mesmo amor?

_123. O frecheiro cego_

Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando,
o verso sem medida, alegre e brando,
despedindo no rustico raminho;
o cruel caçador, que de caminho
se vem calado e manso desviando,
com pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no estigio lago eterno ninho.
Desta arte o coração, que livre andava,
posto que ja de longe destinado,
onde menos temia foi ferido;
porque o frecheiro cego me esperava
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.

_124. Jacob e Raquel_

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela,
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por premio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
passava, contentando-se com vê-la:
porem o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
assi lhe era negada a sua pastora
como se a não tivera merecida,
começou a servir outros sete anos,
dizendo: Mais servira se não fora
para tam longo amor tam curta a vida!

_125. Circe_

Um mover de olhos brando e piedoso
sem ver de que; um riso brando e honesto
quasi forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravissimo e modesto;
uma pura bondade, manifesto
indicio da alma, limpo e gracioso;
um encolhido olhar; uma brandura;
um medo, sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:
esta ja foi a celeste formosura
da minha Circe e o magico veneno
que póde transformar meu pensamento.

_126. Alma minha gentil_

Alma minha gentil que te partiste
tam cedo desta vida descontente,
repousa tu no ceo eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste!
Se lá no assento etereo onde subiste
memoria desta vida se consente,
não te esqueças de aquele amor ardente
que ja nos olhos meus tam puro viste!
E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da magua, sem remedio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tam cedo de cá me leve a ver-te
quam cedo de meus olhos te levou.

_127. Despedida_

Aquela triste e leda madrugada,
chea toda de magua e de piedade,
em quanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando á terra claridade,
viu apartar-se de uma outra vontade
que nunca poderá ver-se apartada;
ela só viu as lagrimas em fio
que, de uns olhos e de outros derivadas
juntando-se formaram largo rio;
ela ouviu as palavras maguadas
que poderão tornar o fogo frio
e dar descanso ás almas condenadas.

_128. Canção_

Junto de um seco, duro, esteril monte
inutil e despido, calvo e informe,
da natureza em tudo aborrecido,
onde nem ave voa nem fera dorme,
nem corre claro rio nem ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruido;
cujo nome, do vulgo introducido,
é Feliz, por antifrasi infelice;
o qual a natureza
situou junto á parte
aonde um braço de alto mar reparte
a Abassia da Arabica aspereza,
em que fundada ja foi Berenice,
ficando á parte donde
o sol que nela ferve se lhe esconde;

o cabo se descobre com que a costa
africana, que do Austro vem correndo,
limite faz, Aromata chamado:
Aromata outro tempo, que volvendo
a roda, a rude lingua mal composta
dos proprios outro nome lhe tem dado.
Aqui no mar, que quer apressurado
entrar por a garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura;
aqui nesta remota, aspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
tambem de si deixasse um breve espaço
porque ficasse a vida
por o mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maos e solitários,
de trabalho, de dor e de ira cheos,
não tendo tam sómente por contrarios
a vida, o sol ardente, as aguas frias,
os ares grossos, fervidos e feos,
mas os meus pensamentos, que são meus
para enganar a propria natureza,
tambem vi contra mi,
trazendo-me á memoria
alguma ja passada e breve gloria,
que eu ja no mundo vi quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por mostrar-me que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu com estes pensamentos
gastando tempo e vida; os quais tam alto
me subiam nas asas que caía,
ó vede se sería leve o salto!
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
O imaginar aqui se convertia
em improvisos choros e em suspiros
que rompiam os ares;
aqui a alma cativa
chagada toda estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba fortuna,
soberba, inexoravel e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse
nem esperança alguma onde a cabeça
um pouce reclinasse por descanso:
tudo dor lhe era e causa que padeça,
mas que pereça não; porque passasse
o que quis o destino nunca manso.
Ó que este irado mar gemendo amanso:
estes ventos da voz importunados
parece que se enfream!
Sómente o ceo severo,
as estrelas e o fado sempre fero
com meu perpetuo dano se recream,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tam pequeno!

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algum’ hora
lembrava a uns claros olhos que ja vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angelicas tocasse
daquela em cuja vista ja vivi;
a qual tornando um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos ja passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores
por ela padecidos e buscados,
e, posto que ja tarde, piedosa
um pouco lhe pesasse
e lá entre si por dura se julgasse:

isto só que soubesse me seria
descanso para a vida que me fica;
com isto afagaria o sofrimento.
Ah senhora, ah senhora! E que tam rica
estais, que ca, tam longe de alegria,
me sustentais com doce fingimento!
Logo que vos figura o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena:
só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera morte,
e logo se me juntam esperanças
com que, a fronte tornada mais serena,
torno os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui com elas fico preguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte onde estais, por vos, senhora;
ás aves que ali voam se vos viram,
que fazieis, que estaveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada se milhora,
toma espiritos novos com que vença
a fortuna e trabalho,
só por tornar a ver-vos,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o tempo que a tudo dará talho,
mas o desejo ardente que detença
nunca sofreo, sem tento
me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguem te preguntasse,
canção, porque nam moiro,
podes-lhe responder que porque moiro.

_129. Elegia_

O poeta Simonides, falando
com o capitão Themistocles um dia,
em cousas de ciencia praticando,
um arte singular lhe prometia
que entam compunha, com que lh’ ensinasse
a lembrar-se de tudo o que fazia;
onde tam sutis regras lhe mostrasse
que nunca lhe passassem da memoria
em nenhum tempo as cousas que passasse
Bem merecia, certo, fama e gloria
quem dava regra contra o esquecimento
que sepulta qualquer antiga historia.
Mas o capitão claro, cujo intento
bem diferente estava, porque havia
do passado as lembranças por tormento,
Ó ilustre Simonides, dizia,
pois tanto em teu engenho te confias
que mostras á memoria nova via,
se me desses uma arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
ó quanto milhor obra me fazias!
Se este excelente dito ponderado
fosse por quem se visse estar ausente,
em longas esperanças degradado,
ó como bradaria justamente:
Simonides, inventa novas artes,
não midas o passado com o presente!
Que se é forçado andar por varias partes,
buscando á vida algum descanso honesto,
que tu, fortuna injusta, mal repartes,
e se o duro trabalho é manifesto
que, por grave que seja, ha de passar-se
com-animoso esprito e ledo gesto,
de que sirve ás pessoas o lembrar-se
do que se passou ja, pois tudo passa,
senam d’ entristecer-se e maguar-se?
Se em outro corpo uma alma se traspassa,
não, como quis Pitagoras, na morte,
mas, como quer amor, na vida escassa;
e se este amor no mundo está de sorte
que na virtude só de um lindo objeito
tem um corpo sem alma vivo e forte,
onde este objeito falta, que é defeito
tamanho para a vida que ja nela
me está chamando á pena a dura Alecto;
porque me não criara a minha estrela
selvatico no mundo e habitante
na dura Scitia e no mais duro dela?
Ou no Caucaso horrendo fraco infante,
criado ao peito de uma tigre hircana,
homem fora formado de diamante?
Porque a cerviz ferina e inhumana
não submetera ao jugo e dura lei
d’ aquele que dá vida quando engana;
ou em pago das aguas que estilei
as que passei do mar foram do Lete,
para que m’ esquecera o que passei!
Porque o bem que a esperança vã promete
ou a morte a estorva ou a mudança,
que é mal que uma alma em lagrimas derrete.
Ja, senhor, cairá como a lembrança
no mal do bem passado é triste e dura,
pois nace aonde morre a esperança.
E se quiser saber como se apura
em almas saudosas, não se enfade
de ler tam longa e misera escritura.
Soltava Eolo a redea e liberdade
ao manso Favonio brandamente
e eu a tinha ja solta á saudade;
Neptuno tinha posto o seu tridente,
a proa a branca escuma dividia,
com a gente maritima contente.
O coro das Nereidas nos seguia,
os ventos namorada Galatea
consigo sossegados os movia;
das argenteas conchinhas Panopea
andava por o mar fazendo molhos,
Melanto, Dinamene, com Ligea.
Eu, trazendo lembranças por antolhos,
trazia os olhos na agua sossegada
e a agua sem sossego nos meus olhos;
a bem-aventurança ja passada
diante de mi tinha tam presente
como se não mudasse o tempo nada,
e com o gesto imoto e descontente
com um suspiro profundo e mal ouvido,
por não mostrar meu mal a toda a gente,
dizia: Ó claras ninfas, se o sentido
em puro amor tivestes, e inda agora
da memoria o não tendes esquecido,
se por ventura fordes algum’ hora
adonde entra o gram Tejo a dar tributo
a Tethis, que vos tendes por senhora,
ou ja por ver o verde prado enxuto
ou ja por colher ouro rutilante,
das tagicas areas rico fruto,
nelas em verso erotico e elegante
escrevei com uma concha o que em mi vistes;
pode ser que algum peito se quebrante,
e contando de mi memorias tristes
os pastores do Tejo, que me ouviam,
ouçam de vos as maguas que me ouvistes.
Elas, que ja no gesto me entendiam,
nos meneos das ondas me mostravam
que em quanto lhes pedia consentiam.
Estas lembranças que me acompanhavam
por a tranquilidade da bonança
nem na tormenta triste me deixavam.
Porque chegando ao Cabo da Esperança,
começo da saudade que renova,
lembrando a longa e aspera mudança,
debaixo estando ja da estrela nova
que no novo hemisferio resplandece,
dando do segundo axe certa prova,
eis a noite com nuvens se escurece,
do ar subitamente foge o dia,
e todo o largo Oceano se embravece.
A maquina do mundo parecia
que em tormentas se vinha desfazendo,
em serras todo o mar se convertia.
Lutando Boreas fero e Noto horrendo
sonoras tempestades levantavam,
das naos as velas concavas rompendo.
As cordas com o ruido assoviavam:
os marinheiros, ja desesperados,
com gritos para o ceo o ar coalhavam.
Os raios por Vulcano fabricados
vibrava o fero e aspero Tonante,
tremendo os polos ambos de assombrados.
Amor ali mostrando-se possante
e que por algum medo não fugia
mas quanto mais trabalho mais constante,
vendo a morte presente, em mi dizia:
Se algum’ hora, senhora, vos lembrasse,
nada do que passei me lembraria.
Enfim nunca houve cousa que mudasse
o firme amor intrinseco de aquele
em quem alguma vez de siso entrasse.
Uma cousa, senhor, por certa assele
que nunca amor se afina nem se apura
em quanto está presente a causa dele.
Desta arte me chegou minha ventura
a esta desejada e longa terra,
de todo pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaidade em nos se encerra,
e nos proprios quam pouca; contra quem
foi logo necessario termos guerra.
Uma ilha que o Rei de Porcá tem
e que o Rei da Pimenta lhe tomara,
fomos tomar-lh’ a, e sucedeu-nos bem.
Com uma grossa armada que juntara
o Viso-Rei, de Goa nos partimos
com toda a gente de armas que se achara;
e com pouco trabalho destruimos
a gente no curvo arco exercitada:
com morte, com incendios os punimos.
Era a ilha com aguas alagada
de modo que se andava em almadias,
enfim outra Veneza trasladada.
Nela nos detuvimos sós dous dias
que foram para alguns os derradeiros,
pois passaram da Estige as ondas frias;
que estes são os remedios verdadeiros
que para a vida estão aparelhados
aos que a querem ter por cavaleiros.
Ó lavradores bem-aventurados,
se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara de agua pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas arvores contente,
sem lhe quebrar o sono repousado
a gram cobiça de ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado
e da formosa cor de Assiria tinto
e dos torçaes atalicos lavrado;
se não tem as delicias de Corinto
e se de Pario os marmores lhe faltam,
o piropo, a esmeralda, e o jacinto;
se as suas casas de ouro não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
onde os cabritos seus comendo saltam.
Ali lhe mostra o campo varias cores,
vem-se os ramos pender com o fruto ameno,
ali se afina o canto dos pastores,
ali cantara Titiro e Sileno;
enfim por estas partes caminhou
a sã justiça para o ceo sereno.
Ditoso seja aquele que alcançou
poder viver na doce companhia
das mansas ovelhinhas que criou!
Este bem facilmente alcançaria
as causas naturais de toda cousa:
como se gera a chuva e neve fria,
os trabalhos do sol, que não repousa,
e porque nos dá a lua a luz alhea,
se tolher-nos de Phebo os raios ousa;
e como tam depressa o ceo rodea,
e como um só os outros traz consigo,
e se é benigna ou dura Citherea.
Bem mal pode entender isto que digo
quem ha de andar seguindo o fero Marte,
que sempre os olhos traz em seu perigo.
Porem seja, senhor, de qualquer arte,
pois posto que a fortuna possa tanto
que tam longe de todo o bem me aparte,
não poderá apartar meu duro canto
desta obrigação sua em quanto a morte
me não entrega ao duro Radamanto,
se para tristes ha tam leda sorte.

_130. Canção_

Ja a roxa manhã clara
as portas do Oriente vinha abrindo,
os montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O sol, que nunca para,
da sua alegre vista saudoso,
tras ela pressuroso
nos cavalos cansados do trabalho
que respiram nas hervas fresco orvalho
s’ estende claro, alegre e luminoso;
os passaros voando
de raminho em raminho vão saltando,
e com suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.
A manhã bela, amena
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
clara, suave, angelica, serena.
Ó deleitosa pena!
Ó efeito de amor alto e potente!
Pois permite e consente
que ou donde quer que eu ande ou donde esteja
o serafico gosto sempre veja
por quem de viver triste sou contente.
Mas tu, aurora pura,
de tanto bem dá graças á ventura,
pois as foi pôr em ti tam excelentes
que representes tanta formosura.
A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem moiro
com os cabelos de ouro
que nenhum ouro iguala se os remeda.
Esta a luz é que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
os orvalhos das flores delicadas
são nos meus olhos lagrimas cansadas
que eu choro com o prazer de meu tormento;
os passaros que cantam
meus espiritos são que a voz levantam
manifestando o gesto peregrino
com tam divino som que o mundo espantam.
Assi como acontece
a quem a cara vida está perdendo
que em quanto vai morrendo
alguma visão santa lhe aparece,
a mim, em quem falece
a vida que sois vos, minha senhora,
a esta alma que em vos mora,
em quanto da prisão se está apartando,
vos estais justamente apresentando
em forma de formosa e roxa aurora.
Ó ditosa partida!
Ó gloria soberana alta e subida!
Se me não impedir o meu desejo,
porque o que vejo, enfim, me torna á vida.
Porem a natureza
que nesta pura vista se mantinha
me falta tam asinha
como o sol faltar soi á redondeza;
se houverdes que é fraqueza
morrer em tam penoso e triste estado,
amor será culpado,
ou vos, onde ele vive tam isento
que causastes tam largo apartamento,
porque perdesse a vida com o cuidado.
Que se viver não posso,
homem formado só de carne e osso,
esta vida que perco amor m’ a deu,
que não sou meu: se moiro, o dano é vosso.
Canção de cisne, feito em hora extrema,
na dura pedra fria
da memoria te deixo em companhia
do letreiro da minha sepultura,
que a sombra escura ja m’ impede o dia.

_131. Canção_

Vão as serenas aguas
do Mondego decendo
e mansamente até o mar não param,
por onde as minhas maguas
pouco a pouco crecendo
para nunca acabar-se começaram.
Ali se me mostraram,
neste lugar ameno
em que inda agora moro,
testa de neve e de ouro,
riso brando e suave, olhar sereno,
um gesto delicado,
que sempre na alma me estará pintado.
Nesta florida terra,
leda, fresca e serena,
ledo e contente para mi vivia,
em paz com minha guerra,
glorioso com a pena
que de tam belos olhos procedia.
D’ um dia em outro dia
o esperar m’ enganava,
tempo longo passei,
com a vida folguei,
só porque em bem tamanho se empregava.
Mas que me presta ja,
que tam formosos olhos não os ha?
Ó quem me ali dissera
que de amor tam profundo
o fim pudesse ver em algum’ hora!
E quem cuidar podera
que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vos, minha senhora!
Para que desde agora,
ja perdida a esperança,
visse o vão pensamento
desfeito em um momento
sem me poder ficar mais que a lembrança,
que sempre estará firme
até no derradeiro despedir-me.
Mas a mor alegria
que d’ aqui levar posso
e com que defender-me triste espero
é que nunca sentia
no tempo que fui vosso
quererdes-me vos quanto vos eu quero.
Porque o tormento fero
do vosso apartamento
não vos dará tal pena
como a que me condena,
que mais sentirei vosso sentimento
que o que a minha alma sente:
morra eu, senhora, e vos ficai contente.
Tu, canção, estarás
agora acompanhando
por estes campos estas claras aguas;
e por mi ficarás
com choro suspirando,
porque, ao mundo dizendo tantas maguas,
como uma larga historia
minhas lagrimas fiquem na memoria.

_132. Egloga_

UMBRANO

Que grande variedade vão fazendo,
Frondelio amigo, as horas apressadas
Como se vão as cousas convertendo
em outras cousas varias e inesperadas!
Um dia a outro dia vai trazendo
por suas mesmas horas ja ordenadas,
mas quam conformes são na quantidade
tam diferentes são na qualidade.
Eu vi ja deste campo as varias flores
ás estrelas do ceo fazendo inveja,
adornados andar vi os pastores
de quanto por o mundo se deseja,
e vi com o campo competir nas cores
os trajes de obra tanta e tam sobeja
que se a rica materia não faltava
a obra de mais rica sobejava.
E vi perder seu preço as brancas rosas
e quasi escurecer-se o claro dia
diante de umas mostras perigosas
que Venus mais que nunca engrandecia,
as pastoras enfim vi tam formosas
que o amor de si mesmo se temia:
mas mais temia o pensamento falto
de não ser para ter temor tam alto.
Agora tudo está tam diferente
que move os corações a grande espanto,
e parece que Jupiter potente
se enfada ja de o mundo durar tanto,
o Tejo corre turvo e descontente,
as aves deixam seu suave canto,
e o gado, inda que a erva lhe falece,
mais que da falta dela se emagrece.

FRONDELIO

Umbrano irmão, decreto é da natura
inviolavel, fixo e sempiterno
que a todo bem suceda desventura
e não haja prazer que seja eterno:
ao claro dia segue a noite escura,
ao suave verão o duro inverno,
e se ha cousa que saiba ter firmeza
é sómente esta lei da natureza.
Toda alegria grande e suntuosa
a porta abrindo vem ao triste estado:
se uma hora vejo alegre e deleitosa
temendo estou do mal aparelhado.
Não ves que mora a serpe venenosa
entre as flores do fresco e verde prado?
Ah, não te engane algum contentamento
que mais instavel é que o pensamento!
E praza a Deus que o triste e duro fado
de tamanhos desastres se contente;
que sempre um grande mal inopinado
é mais do que o espera a incauta gente;
que vejo este carvalho que queimado
tam gravemente foi do raio ardente:
não seja ora prodigio que declare
que o barbaro cultor meus campos are.

UMBRANO

Em quanto de seguro azambujeiro
nos pastores de Luso houver cajados,
com o valor antigo que primeiro
os fez no mundo tam assinalados,
não temas tu, Frondelio companheiro,
que em algum tempo sejam sojugados
nem que a cerviz indomita obedeça
a outro jugo qualquer que se lhe ofreça.
E posto que a soberba se levante
de inimigos a torto e a direito,
não creas tu que a força repugnante
do fero e nunca ja vencido peito,
que desde quem possui o monte Atlante
adonde bebe o Hydaspe tem sujeito,
o possa nunca ser de força alhea,
em quanto o sol a terra e o ceo rodea.

FRONDELIO

Umbrano, a temeraria segurança
que em força ou em razão não se assegura
é falsa e van, que a grande confiança
não é sempre ajudada da ventura;
que lá junto das aras da esperança
Nemesis moderada, justa e dura
um freo lhe está pondo e lei terribil
que os limites não passe do possibil.
E se atentares bem os grandes danos
que se nos vão mostrando cada dia,
porás freo tambem a esses enganos
que te está figurando a ousadia:
tu não ves como os lobos tingitanos
apartados de toda cobardia
matam os cães do gado guardadores
e não sómente os cães mas os pastores?
Pois o grande curral, seguro e forte,
do alto monte Atlas não ouviste
que com sanguinolenta e fera morte
despovoado foi por caso triste?
Ó triste caso! Ó desastrosa sorte,
contra quem força humana não resiste!
Que ali tambem da vida foi privado
o meu Tionio, ainda em flor cortado.

UMBRANO

Em lagrimas me banha rosto e peito
d’ esse caso terrivel a memoria,
quando vejo quam sabio e quam perfeito
e quam merecedor de longa historia
era esse teu pastor, que sem direito
deu ás Parcas a vida transitoria.
Mas não ha quem d ’erva o gado farte
nem de juvenil sangue o fero Marte.
Porem se te não for muito pesado,
ja que esta triste morte me lembraste,
canta-me d’ este caso desastrado
aqueles brandos versos que cantaste
quando hontem, recolhendo o manso gado,
de nos outros pastores te apartaste,
que eu tambem, que as ovelhas recolhia,
não te podia ouvir como queria.

FRONDELIO

Como queres renove ao pensamento
tamanho mal, tamanha desventura?
Porque espalhar suspiros vãos ao vento
para os que tristes são é falsa cura;
mas pois te move tanto o sentimento
da morte de Tionio triste e escura,
eu porei teu desejo em doce efeito,
se a dor me não congele a voz no peito.

UMBRANO

Canta agora, pastor, que o gado pace
entre as humidas ervas sossegado,
e lá nas altas serras, onde nace,
o sacro Tejo, á sombra recostado,
com os seus olhos no chão, a mão na face,
está para te ouvir aparelhado,
e com silencio triste estam as ninfas
dos olhos destilando claras linfas.
O prado as flores brancas e vermelhas
está suavemente presentando,
as doces e solicitas abelhas
com susurro agradavel vão voando,
as candidas pacificas ovelhas
das ervas esquecidas, inclinando
as cabeças estam ao som divino
que faz passando o Tejo cristalino.
O vento d’ entre as arvores respira,
fazendo companhia ao claro rio,
nas sombras a ave garrula suspira,
sua magna espalhando ao vento frio:
toca, Frondelio, toca a doce lira,
que de aquele verde alamo sombrio
a branda Philomela entristecida
ao mais saudoso canto te convida.

FRONDELIO

Aquele dia as aguas não gostaram
as mimosas ovelhas, e os cordeiros
o campo encheram de amorosos gritos;
e não se penduraram dos salgueiros
as cabras, de tristeza, mas negaram
o pasto a si e o leite aos cabritos.
Prodigios infinitos
mostrava aquele dia
quando a Parca queria
principio dar ao fero caso triste.
E tu tambem, ó corvo, o descobriste
quando da mão direita em voz escura
voando repetiste
a tiranica lei da morte dura.
Tionio meu, o Tejo cristalino
e as arvores que ja desamparaste
choram o mal de tua ausencia eterna.
Não sei porque tam cedo nos deixaste
mas foi consentimento do destino,
por quem o mar e a terra se governa
A noite sempiterna
que tu tam cedo viste
cruel, acerba e triste,
sequer de tua idade não te dera
que lograras a fresca primavera?
Não usara comnosco tal crueza
que nem nos montes fera,
nem pastor ha no campo sem tristeza.
Os faunos, certa guarda dos pastores,
ja não seguem as ninfas na espessura,
nem as ninfas aos cervos dão trabalho;
tudo, qual ves, é cheo de tristura:
ás abelhas o campo nega as flores,
como ás flores a aurora nega o orvalho.
Eu, que cantando espalho
tristezas todo o dia,
a frauta que soia
mover as altas arvores tangendo
se me vai de tristeza enrouquecendo,
que tudo vejo triste neste monte;
e tu tambem correndo
manas envolta e triste, ó clara fonte.
As tagides no rio, e na aspereza
do monte as oreadas, conhecendo
quem te obrigou ao duro e fero Marte,
como em geral sentença vão dizendo
que não pode no mundo haver tristeza
em cuja causa amor não tenha parte.
Porque ele enfim desta arte
nos olhos saudosos,
nos passos vagarosos,
e no rosto que amor com fantasia
de palida viola lhe tingia,
a todos de si dava sinal certa
do fogo que trazia,
que nunca soube amor ser encoberto.
Ja diante dos olhos lhe voavam
imagens e fantasticas pinturas,
exercicios do falso pensamento;
ja por as solitarias espessuras
entre os penedos sós que não falavam
falava e descobria seu tormento.
Em longo esquecimento
de si, todo embebido,
andava tam perdido
que quando algum pastor lhe preguntava
a causa da tristeza que mostrava,
como quem para penas só vivia,
sorrindo lhe tornava:
Se não vivesse triste, morreria.
Mas como este tormento o sinalou
e tanto no seu rosto se mostrasse,
entendendo ja bem o pai sisudo,
porque do pensamento lh’ o tirasse
longe da causa dele o apartou;
porque enfim longa ausencia acaba tudo.
Ó falso Marte rudo,
das vidas cobiçoso!
Que donde o generoso
peito resucitava em tanta gloria
de seus antecessores a memoria,
ali fero e cruel lhe destruiste,
por injusta vitoria,
primeiro que o cuidado a vida triste.
Parece-me, Tionio, que te vejo,
por tingires a lança cobiçoso
naquele infido sangue mauritano,
no hispanico ginete belicoso,
que ardendo tambem vinha no desejo
de atropelar por terra ao tingitano.
Ó confiado engano!
Ó encurtada vida!
Que a virtude, oprimida
da multidão forçosa do inimigo,
não póde defender-se do perigo,
porque assi o destino o permitiu
e assi levou consigo
o mais gentil pastor que o Tejo viu.
Qual o mancebo Eurialo, enredado
entre o poder dos Rutulos fartando
as iras da soberba e dura guerra,
do cristalino rosto a cor mudando,
cujo purpureo sangue derramado
por as alvas espaldas tinge a serra;
que como flor que a terra
lhe nega o mantimento
porque o tempo avarento
tambem o largo humor lhe tem negado,
o colo inclina languido e cansado,
tal te pintou, ó Tionio, dando o esprito
a quem t’ o tinha dado;
qu’ este é sómente eterno e infinito.
Da congelada boca a alma pura
com o nome juntamente da inimiga
e excelente Marfida derramava.
E tu, gentil senhora, não te obriga
a pranto sempiterno a morte dura
de quem por ti sómente a vida amava?
Por ti aos ecos dava
acentos numerosos,
por ti aos belicosos
exercidos se deu do fero Marte.
E tu, ingrata, o amor; a noutra parte
porás, como acontece ao fraco intento;
que enfim, enfim, desta arte
se muda o feminino pensamento.
Pastores deste vale ameno e frio,
que de Tionio o caso desastrado
quereis nas altas serras que se cante,
um tumulo de flores adornado
lhe edificai ao longo deste rio
que a vela enfree ao duro navegante;
e o lasso caminhante,
vendo tamanha magua,
arrase os olhos de agua,
lendo na pedra dura o verso escrito,
que diga assi: Memoria sou, que grito
para dar testemunha em toda parte
do mais gentil esprito
que tiraram do mundo Amor e Marte.

UMBRANO

Qual o quieto sono aos cansados
debaixo de alguma arvore sombria,
ou qual aos sequiosos encalmados
o vento respirante e a fonte fria,
tais me foram teus versos delicados,
teu numeroso canto e melodia;
e ainda agora o tom suave e brando
os ouvidos me fica adormentando.
Em quanto os peixes humidos tiverem
as areosas covas deste rio,
e correndo estas aguas conhecerem
do largo mar o antigo senhorio,
e em quanto estas ervinhas pasto derem
ás petulantes cabras, eu te fio
que em virtude dos versos que cantaste
sempre viva o pastor que tanto amaste.
Mas ja que pouco a pouco o sol nos falta
e dos montes as sombras se acrecentam,
de flores mil o claro ceo se esmalta
que tam ledas aos olhos se presentam,
levemos por o pe desta serra alta
os gados, que ja agora se contentam
do que comido tem, Frondelio amigo,
anda, que até o outeiro irei contigo.

FRONDELIO

Antes por este vale, amigo Umbrano,
se te aprouver, levemos as ovelhas,
porque, se eu por acerto não me engano,
de lá me soa um eco nas orelhas:
o doce acento não parece humano;
e, se em contrario tu não me aconselhas,
eu quero descobrir que cousa seja,
que o tom m’ espanta e a voz me faz inveja.

UMBRANO

Contigo vou, que quanto mais me chego
mais gentil me parece a voz que ouviste,
peregrina, excelente, e não te nego
que me faz cá no peito a alma triste.
Ves como tem os ventos em sossego?
Nenhum rumor da serra lhe resiste;
nenhum passaro voa, mas parece
que do canto vencido lhe obedece.
Porem, irmão, milhor me parecia
que não fossemos lá, que estorvaremos;
mas subidos nesta arvore sombria
todo o vale de aqui descobriremos.
Os çurrões e cajados todavia
neste comprido tronco penduremos:
para subir fica homem mais ligeiro.
Deixa-me tu, Frondelio, ir primeiro.

FRONDELIO

Espera, assi dar-te-hei pe se queres,
subirás sem trabalho e sem ruido,
e depois que subido lá estiveres
dar-me-has a mão de cima, que é partido.
Mas primeiro me dize, se o puderes
ver, donde nace o canto nunca ouvido:
quem lança o doce acento delicado?
Fala, que ja te vejo estar pasmado.

UMBRANO

Cousas não costumadas na espessura
que nunca vi, Frondelio, vejo agora:
formosas ninfas vejo na verdura,
cujo divino gesto o ceo namora;
uma de desusada formosura,
que das outras parece ser senhora
sobre um triste sepulcro não cessando
está perlas dos olhos destilando.
De todas estas altas semideas
que em torno estam do corpo sepultado,
umas regando as humidas areas
de flores tem o tumulo adornado,
outras queimando lagrimas sabeas
enchem o ar de cheiro sublimado,
outras em ricos panos mais avante
envolvem brandamente um novo infante.
Uma que d’ entre as outras se apartou,
com gritos que a montanha entristeceram,
diz que, depois que a morte a flor cortou
que as estrelas sómente mereceram,
este penhor carissimo ficou
de aquelo a cujo imperio obedeceram
Douro, Mondego, Tejo e Guadiana,
até o remoto mar da Taprobana.
Diz mais que se encontrar este menino
a noite intempestiva amanhecendo,
o Tejo, agora claro e cristalino,
tornará a fera Alecto em vulto horrendo;
mas que, a ser conservado do destino,
as benignas estrelas prometendo
lhe estam o largo pasto de Ampelusa,
com o monte que em mao ponto viu Medusa.
Este prodigio grande a ninfa bela
com abundantes lagrimas recita;
porem qual a eclipsada clara estrela
que entre as outras o ceo primeiro habita,
tal coberta de negro vejo aquela
a quem só na alma toca a gram desdita.
Dá cá, Frondelio, a mão e sobe a ver
tudo o mais que eu de dor não sei dizer.
Ó triste morte, esquiva e mal olhada,
que a tantas formosuras injurias!
Áquela deusa bela e delicada
sequer algum respeito ter devias:
esta é por certo Aonia, filha amada
d’ aquele gram pastor que em nossos dias
Danubio enfrea, manda o claro Ibero,
e espanta o morador do Euxino fero.
Morreu-nos o excelente e poderoso,
que a isto está sujeita a vida humana,
doce Aonio, de Aonia caro esposo.
Ah lei dos fados aspera e tirana!
Mas o som peregrino e piedoso
com que a formosa ninfa a dor engana
escuta um pouco: nota e ve, Umbrano,
quam bem que soa o verso castelhano!

AONIA

Alma y primero amor del alma mía,
espíritu dichoso en cuya vida
la mía estuvo en cuanto Dios quería!
Sombra gentil de su prisión salida,
que del mundo a la patria te volviste
donde fuiste engendrada y procedida!
Recibe allá este sacrificio triste
que te ofrecen los ojos que te vieron,
si la memoria de ellos no perdiste.
Que pues los altos cielos permitieron
que no te acompañase en tal jornada
y para ornarse solo a ti quisieron,
nunca permitirán que acompañada
de mi no sea esta memoria tuya
que está de tus despojos adornada.
Ni dejará, por más que el tiempo huya,
de estar en mí con sempiterno llanto
hasta que vida y alma se destruya.
Mas tú, gentil espíritu, entretanto
que otros campos y flores vas pisando
y otras zampoñas oyes y otro canto,
agora embebecido estés mirando
allá en el empireo aquella idea
que el mundo enfrena y rige con su mando;
agora te posea Citerea
en el tercero asiento, o porque amaste
o porque nueva amante allá te sea;
agora el sol te admire, si miraste
como va por los signos encendido,
las tierras alumbrando que dejaste:
si en ver estos milagros no has perdido
la memoria de mí o fué en tu mano
no pasar por las aguas del olvido,
vuelve un poco los ojos a este llano:
verás una que a ti en triste lloro
sobre este marmol sordo llama en vano.
Pero si entraren en los siglos de oro
lágrimas y gemidos amorosos
que muevan el supremo y santo coro,
la lumbre de tus ojos tan hermosos
yo la veré muy presto, y podré verte,
que a pesar de los hados enojosos
tambien para los tristes hubo muerte!

_133. Oitavas sobre o desconcerto do mundo_

Quem pode ser no mundo tam quieto
ou quem terá tam livre o pensamento,
quem tam experimentado ou tam discreto,
tam fora, enfim, de humano entendimento,
que ou com publico efeito ou com secreto
lhe nam revolve e espante o sentimento,
deixando-lhe o juizo quasi incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?

Quem ha que veja aquele que vivia
de latrocinios, mortes e adulterios,
que ao juizo das gentes merecia
perpetua pena, imensos vituperios,
se a fortuna em contrario o leva e guia,
mostrando enfim que tudo são misterios,
em alteza de estudos triunfante,
que por livre que seja não s’ espante?

Quem ha que veja aquele que tam clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o proprio Momo ás gentes o julgara
inda quando lhe visse aberto o peito,
se a má fortuna, ao bem sómente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe nam fique o peito congelado
por mais e mais que seja experimentado?

Democrito dos deuses proferia
que eram só dous: a Pena e Beneficio;
segredo algum será da fantasia
de que eu achar nam posso claro indicio:
que se ambos vem por nam cuidada via
a quem os nam merece, é grande vicio
em deuses semjustiça e semrazão.
Mas Democrito o disse e Paulo não!

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The Oxford book of Portuguese verseChapter D: Manuel De Portugal (1)

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