Skip to content

Chapter D: Manuel De Portugal (2)

Text size

Dir-me-heis que se este estranho desconcerto
novamente no mundo se mostrasse,
que por livre que fosse e mui experto,
não era d’ espantar se m’ espantasse;
mas que se ja de Socrates foi certo
que nenhum grande caso lhe mudasse
o vulto, ou de prudente ou de constante,
exemplo tome dele e não m’ espante.

Parece a razão boa, mas eu digo
deste uso da fortuna tam danado
que quanto é mais usado e mais antigo,
tanto é mais estranhado e blasfemado;
porque se o ceo, das gentes tam amigo,
não dá á fortuna tempo limitado,
não é para causar mui grande espanto
que mal tam mal olhado dure tanto?

Outro espanto maior aqui m’ enlea:
que com quanto fortuna tam profana
com estes desconcertos senhorea,
a nenhuma pessoa desengana.
Não ha ninguem que assente nem que crea
este discurso vão da vida humana,
por mais que filosofe nem que entenda,
que algum pouco do mundo não pretenda.

Diogenes pisava de Platão
com seus sordidos pes o rico estrado,
mostrando outra mais alta presunção
em despresar o fausto tam presado.
Diogenes, não ves que extremos são
esses que segues de mais alto estado?
Pois se de despresar te presas muito,
ja pretendes do mundo fama e fruito.

Deixo agora reis grandes, cujo estudo
é fartar esta sede cobiçosa
de querer dominar e mandar tudo
com fama larga e pompa suntuosa;
deixo aqueles que tomam por escudo
de seus vicios e vida vergonhosa
a nobreza de seus antecessores,
e não cuidam de si que são piores.

Aquele deixo a quem do sono esperta
o gram favor do rei que serve e adora,
e se mantem desta aura falsa e incerta
que de corações tantos é senhora;
deixo aqueles qu’ estam com a boca aberta
por se encher de tesouros de hora em hora
doentes desta falsa hidropesia
que quanto mais alcança mais queria.

Deixo outras obras vans do vulgo errado
a quem não ha ninguem que contradiga
nem de outra cousa alguma é governado
que de uma opinião e usança antiga;
mas pregunto ora a Cesar esforçado,
ora a Platão divino que me diga,
este das muitas terras em que andou,
aquele de vencê-las, que alcançou?

Cesar dirá: Sou dino de memoria
vencendo povos varios e esforçados;
fui monarca do mundo, e larga historia
ficará de meus feitos sublimados.
É verdade: mas esse mando e gloria,
lograste-o por muito tempo? Os conjurados
Bruto e Cassio dirão que se venceste
enfim, enfim ás mãos dos teus morreste.

Dirá Platão: Por ver o Etna e o Nilo
fui a Sicilia, Egypto e outras partes,
só por ver e escrever em alto estilo
da natural sciencia e muitas artes.
O tempo é breve e queres consumi-lo,
Platão, todo em trabalhos? E repartes
tam mal de teu estudo as breves horas
que enfim do falso Phebo o filho adoras?

Pois logo des que vive ja apartada
a lama desta prisão terrestre e escura,
está em tamanhas cousas ocupada
que de fama que fica nada cura;
e se o corpo terreno sinta nada,
o cinico dirá, se por ventura
no campo onde lançado morto estava
de si os cães ou as aves enxotava.

Quem tam baixa tivesse a fantasia
que nunca em mores cousas a metesse
que em só levar seu gado á fonte fria
e mungir-lhe do leite que bebesse!
Quam bem-aventurado que seria,
que por mais que a fortuna revolvesse,
nunca em si sentiria maior pena
que pesar-lhe de a vida ser pequena!

Veria erguer do sol a roxa face,
veria correr sempre a clara fonte,
sem imaginar a agua donde nace
nem quem a luz oculta no horisonte;
tangendo a frauta donde o gado pace,
conheceria as ervas do alto monte:
em Deus creria, simplex e quieto,
sem mais especular algum secreto.

De um certo Trasilao se le e escreve
entre as cousas da velha antiguidade
que perdido gram tempo o siso teve
por causa de uma grave enfermidade;
e em quanto de si fora doudo esteve,
tinha por teima e cria por verdade
que eram suas das naos que navegavam
quantas no Porto Pireo ancoravam.

Por um senhor mui grande se teria,
alem da vida alegre que passava,
pois nas que se perdiam não perdia
e das que vinham salvas se alegrava.
Não tardou muito tempo quando um dia
um Crito, seu irmão, que ausente estava,
á terra chega e vendo o irmão perdido
do fraternal amor foi comovido.

Aos medicos o entrega e com aviso
o faz estar á cura refusada:
triste, que por tornar-lhe o antigo siso,
lhe tira a doce vida descansada!
As ervas apolineas de improviso
o tornam á saude ja passada;
sisudo, Trasilao ao caro irmão
agradece a vontade, a obra não.

Porque depois de ver-se no perigo
do trabalho a que o siso o obrigava
e depois de não ver o estado antigo
que a louca presunção lhe apresentava,
O inimigo irmão com cor de amigo,
para que me tiraste, suspirava,
da mais quieta vida e livre em tudo
que nunca póde ter nenhum sisudo?

Por qual senhor algum me eu trocara
ou por qual algum rei de mais grandeza?
Que me dava que o mundo se acabara
ou que a ordem mudasse a natureza?
Agora me é penosa a vida cara:
sei que cousa é o trabalho e que é tristeza
Torna-me a meu estado, que eu te aviso
que na doudice só consiste o siso!

Vedes aqui, senhor, bem claramente
como a fortuna em todos tem poder
senão só no que menos sabe e sente,
em quem nenhum desejo pode haver:
este se pode rir da cega gente,
neste não pode nada acontecer,
nem estará suspenso na balança
do temor mao, da perfida esperança.

Mas se o sereno ceo me concedera
qualquer quieto, humilde e doce estado,
onde com minhas musas só vivera,
sem ver-me em terra alhea degradado,
e ali outrem ninguem me conhecera
nem eu conhecera outro mais honrado
senão a vos, tambem como eu contente,
que bem sei que o serieis facilmente,

e ao longo de uma clara e pura fonte
que em borbulhas nacendo convidasse
ao doce passarinho que nos conte
quem da cara consorte o apartasse;
depois, cobrindo a neve o verde monte,
ao gasalhado o frio nos levasse,
avivando o juizo ao doce estudo,
mais certo manjar de alma, enfim, que tudo.

Cantara-nos aquele que tam claro
o fez o fogo da arvore febea:
a qual ele em estilo grande e raro
louvando o cristalino Sorga enfrea;
tangera-nos na frauta Sannazaro
ora nos montes, ora na area;
Passara celebrando o Tejo ufano
o brando e doce Lasso castelhano.

E comnosco tambem se achara aquela
cuja lembrança e cujo claro gesto
na alma sómente vejo, porque nela
está em essencia, puro e manifesto,
por alta influição de minha estrela,
mitigando o rigor do peito honesto,
entretecendo rosas nos cabelos
de que tomasse a luz o sol em vê-los.

E em quanto por verão flores colhesse,
ou por inverno ao fogo acomodado,
o que de mi sentira nos dissesse,
de puro amor o peito salteado,
não pedira entam eu que amor me desse
do insano Trasilao o doudo estado,
mas que ali me dobrasse o entendimento
por ter de tanto bem conhecimento.

Mas por onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças
se tam longe a fortuna me desvia
que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento amor me cria
onde o lugar, o temor, as esquivanças
do bem me fazem tam desamparado
que não pode ser mais que imaginado?

Fortuna, enfim, com o amor se conjurou
contra mi porque mais me maguasse,
amor a um vão desejo me obrigou
só para que a fortuna m’ o negasse;
o tempo a tal estado me chegou
e nele quis que a vida se acabasse,
se ha em mi acabar-se: o que eu não creo,
que até da muita vida me receo.

_134. Canção_

Vinde cá, meu tam certo secretario
dos queixumes que sempre ando fazendo,
papel com que a pena desafogo!
As semrazões digamos que vivendo
me faz o inexoravel e contrario
destino, surdo a lagrimas e a rogo.
Lancemos agua pouca em muito fogo,
acenda-se com gritos um tormento
que a todas as memorias seja estranho!
Digamos mal tamanho
a Deus, ao mundo, ás gentes e enfim ao vento,
a quem ja muitas vezes o contei,
tanto debalde como o conto agora!
Mas ja que para errores fui nacido,
vir este a ser um deles não duvido.
E pois ja de acertar estou tam fora,
não me culpem se tambem nisto errei.
Sequer este refugio só terei:
falar e errar sem culpa livremente.
Triste quem de tam pouco está contente!

Ja me desenganei que de queixar-me
não se alcança remedio, mas quem pena
forçado lhe é gritar se a dor é grande.
Gritarei, mas é debil e pequena
a voz para poder desabafar-me,
porque nem com gritar a dor se abrande.
Quem me dará sequer que fora mande
lagrimas e suspiros infinitos
iguais ao mal que dentro na alma mora?
Mas quem pode algum’ hora
medir o mal com lagrimas e gritos?
Direi enfim aquilo que m’ ensinam
a ira, a magua e d’ elas a lembrança,
que outra dor é, por si mais dura e firme.
Chegai, desesperados, para ouvir me!
E fujam os que vivem d’ esperança
ou aqueles que nela se imaginam!
Porque amor e fortuna determinam
de lhes darem poder para entenderem
á medida dos males que tiverem.

Quando vim da maternal sepultura
de novo ao mundo, logo me fizeram
estrelas infelizes obrigado:
com ter livre albedrio m’ o não deram,
que eu conheci mil vezes na ventura
o milhor, e o pior segui forçado.
E para que o tormento conformado
me dessem com a idade, quando abrisse
inda menino os olhos brandamente,
mandam que diligente
um menino sem olhos me ferisse.
As lagrimas da infancia ja manavam
com uma saudade namorada,
o som dos gritos que no berço dava
ja como de suspiros me soava;
com o fado estava a idade concertada,
porque quando por caso me embalavam,
se de amor tristes versos me cantavam
logo me adormecia a natureza,
que tam conforme estava com a tristeza.

Foi minha ama uma fera, que o destino
não quis que mulher fosse a que tivesse
tal nome para mi, nem a haveria.
Assi criado fui porque bebesse
o veneno amoroso de menino
que na maior idade beberia,
e por costume não me mataria;
logo entam vi a imagem e semelhança
de aquela humana fera tam formosa,
suave e venenosa,
que me criou aos peitos da esperança,
de quem eu vi depois o original,
que de todos os grandes desatinos
faz a culpa soberba e soberana.
Parece-me que tinha forma humana,
mas scintilava espiritos divinos:
um meneo e presença tinha tal
que se vangloriava todo o mal
na vista dela; a sombra com a viveza
excedia o poder da natureza.

Que genero tam novo de tormento
teve amor sem que fosse não sómente
provado em mi mas tudo executado!
Implacaveis durezas que ao fervente
desejo, que dá força ao pensamento,
tinham de seu proposito abalado
e corrido de ver-se injuriado.
Aqui sombras fantasticas, trazidas
de algumas temerarias esperanças,
as bem-aventuranças
tambem nelas fundadas e fingidas;
mas a dor do despreso recebido
que todo o fantasiar desatinava
estes enganos punha em desconcerto;
aqui o adivinhar e ter por certo
que era verdade quanto adivinhava,
e logo o desdizer-me de corrido,
dar ás cousas que via outro sentido
e para tudo, enfim, achar razões;
mas eram muitas mais as semrazões.

Não sei como sabia estar roubando
com os raios as entranhas que fugiam
para ela por os olhos sutilmente:
pouco a pouco invisiveis me saiam,
bem como do veo humido exhalando
está o sutil humor o sol ardente.
O gesto puro enfim e transparente,
para quem fica baixo e sem valia
este nome de belo e de formoso;
o doce e piedoso
mover de olhos que as almas suspendia,
foram as ervas magicas que o ceo
me fez beber, as quais por longos anos
n’ outro ser me tiveram transformado,
e tam contente de me ver trocado
que as maguas enganava com os enganos;
e diante dos olhos punha o veo
que m’ encobrisse o mal que assi creceu,
como quem com afagos se criava
de aquele para quem criado estava.

Pois quem pode pintar a vida ausente
com um descontentar-me quanto via?
e aquele estar tam longe de onde estava,
o falar sem saber o que dizia,
andar sem ver por onde, e juntamente
suspirar sem saber que suspirava?
Pois quando aquele mal me atormentava
e aquela dor que das tartareas aguas
saio ao mundo e mais que todas doi,
que tantas vezes soi
em duras iras tomar brandas maguas?
agora com o furor da magua irado
querer e não querer deixar de amar?
E mudar n’ outra parte por vengança
o desejo privado d’ esperança
que tam mal se podia ja mudar;
agora a saudade do passado,
tormento puro, doce e maguado,
que converter fazia estes furores
em maguadas lagrimas de amores?

Que desculpas comigo só buscava
quando o suave amor me não sufria
culpa na cousa amada, e tam amada.
Eram enfim remedios que fingia
o medo do tormento que ensinava
a vida a sustentar-se de enganada.
Nisto uma parte dela foi passada,
na qual, se teve algum contentamento,
breve, imperfeito, timido, indecente,
não foi senão semente
de longo e amarissimo tormento.
Este curso contino de tristeza,
estes passos tam vanmente espalhados,
me foram apagando o ardente gosto
que tam de siso na alma tinha posto,
de aqueles pensamentos namorados
com que criei a tenra natureza,
que do longo costume da aspereza,
contra quem força humana não resiste,
se converteu ao gosto de ser triste.

Desta arte a vida em outra fui trocando:
eu não, mas o destino fero, irado;
que eu inda assi por outra a não trocara.
Fez-me deixar o patrio ninho amado,
passando o longo mar que ameaçando
tantas vezes m’ esteve a vida cara,
agora experimentando a furia rara
de Marte que nos olhos quis que logo
visse e tocasse o acerbo fruto seu,
e neste escudo meu
a pintura verão do infesto fogo;
agora peregrino, vago errante,
vendo nações, linguagens e costumes,
ceos varios, qualidades diferentes,
só por seguir com passos diligentes
a ti, fortuna injusta, que consumes
as idades, levando-lhes diante
uma esperança em vista de diamante,
mas quando das mãos cai se conhece
que é fragil vidro aquilo que aparece.

A piedade humana me faltava,
a gente amiga ja contraria via
no perigo primeiro; e no segundo
terra em que pôr os pes me falecia,
ar para respirar se me negava,
e faltava-me, enfim, o tempo e o mundo.
Que segredo tam arduo e tam profundo:
nacer para viver, e para a vida
faltar-me quanto o mundo tem para ela!
E não poder perdê-la
estando tantas vezes ja perdida!
Enfim não houve transe de fortuna
nem perigos nem casos duvidosos,
injustiças de aqueles que o confuso
regimen do mundo, antigo abuso,
faz sobre os outros homens poderosos,
que eu não passasse, atado á fiel coluna
do sofrimento meu, que a importuna
perseguição de males em pedaços
mil vezes fez á força de seus braços.

Não conto tantos males como aquele
que depois da tormenta procelosa
os casos dela conta em porto ledo,
que inda agora a fortuna flutuosa
a tamanhas miserias me compele
que de dar um só passo tenho medo.
Ja de mal que me venha não me arredo
nem bem que me faleça ja pretendo,
que para mi não val astucia humana:
da força soberana,
da providencia, enfim, divina pendo.
Isto que cuido e vejo ás vezes tomo
para consolação de tantos danos,
mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre e não alcança
senão memoria dos passados anos,
as aguas que entam bebo e o pão que como
lagrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantasticas pinturas de alegria.

Que se possivel fosse que tornasse
o tempo para tras como a memoria,
por os vestigios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga historia
de meus doces errores me levasse
por as flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saudade
entam fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave
onde uma e outra chave
esteve de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a vista, a neve, a rosa, a formosura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a singela amizade que desvia
toda a baixa tenção terrena, impura,
como a qual outra alguma não vi mais.
Ah vans memorias! Onde me levais?
Ó debil coração, que inda não posso
domar bem este vão desejo vosso!

Não mais, canção, não mais, que irei falando
sem o sentir, mil anos; e se acaso
te culparem de larga e de pesada,
Não pode ser, lhe dize, limitada
a agua do mar em tam pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
com o gosto do louvor, mas explicando
puras verdades ja por mi passadas:
oxalá foram fabulas sonhadas!

ANTONIO FERREIRA

[Sidenote: 1528-1569]

_135. Á morte de sua mulher_

Aquele claro sol que me mostrava
o caminho do ceo mais chão, mais certo,
e com seu novo raio ao longe e ao perto
toda a sombra mortal me afugentava,
deixou a prisão triste em que cá estava:
eu fiquei cego e só, com passo incerto,
perdido peregrino no deserto
a que faltou a guia que o levava.
Assi com o espirito triste, o juizo escuro,
suas santas pisadas vou buscando
por vales, por campos e por montes.
Em toda a parte a vejo e figuro:
ela me toma a mão e vai guiando,
e meus olhos a seguem, feitos fontes.

_136. Coro_

Quando amor naceu
naceu no mundo vida,
claros raios ao sol, luz ás estrelas;
o ceo resplandeceu,
e de sua luz vencida,
a escuridão mostrou as cousas belas.
Aquela que subida
está na terceira esfera,
do bravo mar nacida,
amor ao mundo dá, doce amor gera.

Por amor se orna a terra
de aguas e de verdura,
ás arvores dá folhas, cor ás flores,
em doce paz a guerra,
a dureza em brandura,
e mil odios converte em mil amores.
Quantas vidas a dura
morte desfaz renova,
a formosa pintura
do mundo amor a tem inteira e nova.

Ninguem tema seus fogos
e chamas furiosas:
amor é tudo, amor suave e brando,
sujeito a brandos rogos,
as aguas amorosas
dos olhos com brandura está alimpando.
Douradas e formosas
setas na aljaba soam,
á vista perigosas,
mas amor levam, dos amores voam.

Amor em doces cantos,
em doces liras soa,
torne seu brando nome este ar sereno:
fujam maguas e prantos,
o ledo prazer voe,
e claro o rio faça, o vale ameno;
no terceiro ceo toe
de amor a doce lira,
e de lá te coroe,
Castro, d’ ouro o gram Deus que amor inspira!

_137. Ode a Antonio de Sá de Meneses_

Eis nos torna a nacer o ano formoso,
zefiro brando e doce primavera,
eis o campo cheiroso,
eis cinge o verde louro ja a nova hera.
Ja do ar caido gera
o cristalino orvalho ervas e flores;
as Graças e os Amores,
coroados de alegria,
em doce companhia
de ninfas e pastores ao som brando
doces versos de amor vão revesando.
Apos a branda deusa do terceiro
ceo, que triunfando vai de Apolo e Marte,
e entre eles o frecheiro
o seu doce fogo onde quer reparte;
fogem de toda parte
nuvens, a neve ao sol té entam dura
se converte em brandura,
e da alta e fria serra
caindo rega a terra
agua ja clara, a cujo som adormece
toda fera serpente, e o mirto crece.
Renace o mundo e torna á forma nova
do seu dia primeiro, o sol mais puro
sua luz nos renova
e afugentando vai o inverno escuro.
O monte calvo e duro,
o vale d’ antes triste, o turvo rio,
ar tempestuoso e frio,
os tornam graciosos
aqueles amorosos
olhos de Venus, faces de Cupido,
criando em toda parte um Chipre, um Gnido.
Ja deixa o fogo o lavrador, ja o gado,
da longa prisão solto, corre e salta,
roendo o verde prado,
nem agua clara nem verdura falta.
Eis tira da arvore alta
ou Progne com seu ninho ou Philomena
Titiro, e inda sem pena
cria a tenra ave ledo,
por esperar que cedo
do seu formoso dom Cloris vencida
não sofrerá ser dele em vão seguida.
Agora nos tambem nos coroemos,
ó claro Antonio, de hera, mirto e louro,
e mil odes cantemos
a branda Venus, mil a Apoio louro,
que com seu raio de ouro
a escura nuvem do teu peito aclara.
Ah quanto suspirara!
Ah como desfazendo
em tenro pranto e erguendo
os olhos a ti, Phebo, Nise triste
chamar ó sol, ó sol com magua ouviste!
Olho claro do ceo, vida do mundo,
luz que a lua e estrelas alumias,
o movedor segundo
de quantas cousas cá na terra crias,
crespo Apolo que os dias
trazes formosos e as douradas horas,
lá desse alto onde moras
com tua luz clara e santa
que o mao Saturno espanta,
torna a Antonio e conserva a luz primeira,
do puro sangue a cor e a força inteira.
Os mais brandos licores, suaves çumos
das mais saudaveis plantas busca, e colhe
os mais cheirosos fumos
que Arabia em si, em si Saba recolhe,
faze que onde quer que olhe
o teu bom Sá, prazer e riso e canto
veja! Ah Phebo, a quem tanto
teu claro lume adora,
e ao Douro que inda chora
do seu passado medo a viva magua,
não negues a um sã vida, a outro clara agua!
A vida foge como ao sol a sombra,
quem poder viva em quanto uma hora tarda,
hora que espanta e assombra,
nem escusa recebe ou ponto aguarda.
Quem sua vida guarda
para outro dia? Quem no leve vento
faz firme fundamento?
Anda o ceo, volve o ano,
mostrando o desengano
desta vida inconstante e enfim mortal,
de bens escassa, prodiga em mal.
Ó meu bom Sá, em quanto nos defende
a vida breve largas esperanças,
tu ledo o spirito estende
por honestos prazeres, sans lembranças,
livre das vans mudanças
em que andam os mais em sorte ao vento postos
com os inconstantes rostos:
lá sempre um, sempre inteiro,
seguindo o verdadeiro
caminho, que o alto ceo te chama e guia,
contente vive o ano, o mes e o dia.

DIOGO BERNARDEZ

[Sidenote: c. 1530-c. 1600]

_138. Soneto_

Da branca neve e da vermelha rosa
o ceo de tal maneira derramou
no vosso rosto as cores que deixou
a rosa da manhã mais vergonhosa.
Os cabelos, de amor prisão formosa,
não d’ ouro, que ouro fino despresou,
mas dos raios do sol vo-los dourou,
do que Cintia tambem anda invejosa.
Um resplandor ardente mas suave
está nos vossos olhos derramando
que o claro deixa escuro, o escuro aclara;
a doce fala, o riso doce e grave
entre rubis e perlas lampejando
não tem comparação por cousa rara.

_139. Soneto_

Se toda a vida nossa é desafio,
se sobre nada tem seu fundamento,
que descuido é este meu? que errado intento?
Que pretendo? que espero? em que me fio?
Ó vida humana, folha em seco estio
levada pelo ar de qualquer vento,
Ó flor de primavera num momento
chamuscada do sol, murcha do frio!
Quando cuido no tempo atras passado
o que passei m’ espanta, o por vir temo,
no presente não sei que m’ embaraça.
Mas ainda que de ti tam alongado,
ordena tu que torne, ó Pai supremo,
este prodigo filho á tua graça!

_140. Soneto_

Horas breves do meu contentamento,
nunca me pareceu quando vos tinha
que vos visse tornadas tam asinha
em tam compridos dias de tormento!
Aquelas torres que fundei no vento
o vento m’ as levou que as sostinha:
do mal que me ficou a culpa é minha,
pois sobre cousas vans fiz fundamento.
Amor com brandas mostras aparece,
tudo possivel faz, tudo assegura,
mas logo no milhor desaparece.
Ó cegueira tamanha! Ó desventura!
Por um pequeno bem que desfalece
aventurar um bem que sempre dura!

_141. Egloga_

Cantava Alcido um dia ao som das aguas
do Lima que mais brando ali corria,
dizem que por ouvir suas doces maguas.
Sobre um curvo penedio que pendia
por cima da corrente vagarosa,
se me não lembra mal, assi dizia:
Silvia, nestes meus olhos mais formosa
que o sol de dia, que de noite a lua,
não digo lirio ja, não digo rosa,
que flor não cria o vale que da tua
formosura não tenha grande inveja:
se tam formosa es, como es tam crua?
Porque despresas, Silvia, quem deseja
mais o teu gosto só que a propria vida?
Porque t’ escondes onde te não veja?
Nem sempre no bosque espesso escondida
a mansa cerva está posta em seguro,
nem sempre em raso campo é ofendida.
Vem, Silvia, ja ver neste cristal puro
teu brando parecer d’ aqui de cima
deste penedo, menos que ti duro.
Porque fazes, cruel, tam pouca estima
desta fresca ribeira, destas flores
que mansamente rega o manso Lima?
Aqui as doces aves seus amores
de um ramo em outro ramo vão cantando,
aqui se veste o campo de mil cores,
d’ aqui donde por ti estou chamando
no fundo deste pego os negros peixes
e os brancos seixos estarás contando.
Ou te queixes de mim ou te não queixes,
ou branda ou sempre irosa me respondas,
este fresco lugar, Silvia, não deixes.
Uma sombria lapa em que te escondas
do sol te mostrarei, dormirás nela
ao som do murmurar das roucas ondas:
em tanto do teu gado serei vela
e juntamente te estarei tecendo
de branca madresilva uma capela.
D’ ali indo o sol ja menos ardendo,
ao longo deste rio nos iremos,
ora uma flor, ora outra flor colhendo.
Os olhos pelo campo estenderemos,
o saudoso melro de uma banda
e o doce rouxinol d’ outra ouviremos.
Silvia soando irá na lira branda,
soará Silvia na montanha dura,
que sua dureza com teu nome abranda.
Des que deixei de ver tua formosura
ja o sol tres vezes alumiou a terra
e outras tantas a deixou escura.
Qualquer lugar que em si te esconde e encerra
nunca o verei sem dor, nunca sem magua,
ou seja campo ou bosque ou vale ou serra.
Achei de duas rolas nesta fragua
os tenros filhos sobre um freixo antigo
que tem suas raizes dentro na agua.
Saltou a nossa Filis ja comigo
com dadivas e rogos que lh’ os desse:
Não trabalhes em vão, Filis, lhe digo.
Tam corrida se foi que se soubesse
onde eles ora estam, tenho por certo
que m’ os furtasse logo se podesse;
mas não os pode ver senam de perto,
que, alem do freixo estar de agua cercado,
de uma verde parreira está coberto.
Silvia, teus hão de ser, perde o cuidado,
eu os vigiarei até que venhas
milhor do que vigio este meu gado.
E qual fruta haverá que tu não tenhas,
que se crie em mimosa e culta planta
ou na dura que nace em duras brenhas?
Inda que tua crueza seja tanta,
descanso me será qualquer trabalho,
que tudo vence amor, tudo quebranta.
As douradas maçãs no mesmo galho,
doces e roxas uvas pela fria
colherei para ti cheas de orvalho.
Isto todo a seu tempo te daria
e outras cousas mais, com que t’espero
ha tantos dias ja, de dia em dia,
que não abranda amor teu peito fero,
bem fero e bem cruel mas bem formoso,
pois sabe quanto peno e quanto quero.
Mil vezes meu esprito saudoso
de mim se parte e deixa o corpo frio,
do que deseja mais mais duvidoso.
Mil vezes de mil lagrimas um rio
banhando vai a face descorada,
outras tantas se falo desvario.
De leves sombras fica salteada
esta alma que lá trazes não sei onde,
nos teus formosos olhos pendurada,
quando chamo por ti, que me responde
a mesma voz na vale onde em vão grito,
cuido que outrem te chama e que s’ esconde.
Ali com nova força, novo esprito,
com ira vou buscando quem nomea
teu doce nome no meu peito escrito.
Se com suave som brando menea
um leve e brando vento a folha leve,
se fere a onda crespa a branca area,
ouvir-te me parece. Ah gosto breve!
Eis este engano passa, eis n’ outro caio:
quem enganos de amor estranhar deve?
Quando em bosque escuro um claro raio
por entre a basta rama resplandece,
ali me enlevo todo, ali desmaio:
dos teus serenos olhos me parece
aquela viva luz que se me nega,
em cuja ausencia o sol se m’ escurece.
Envolto em laços d’ outro amor m’ entrega,
aquele imaginar sempre sobejo
ali vista me dá, ali me cega.
Que planta posso ver, que pedra vejo,
que lirio ou que rosa ou neve ou fogo
onde te não figure o meu desejo?
Amor anda de mim fazendo jogo;
tu, Silvia, muito mais, pois te não movem
tantas lagrimas tristes, tanto rogo.
Tuas frias entranhas inda provem,
porem mais brandamente, as chamas vivas
que nestas minhas de contino chovem.
Porque foges de mim, porque m’ esquivas?
que não ha cousa aqui que não te aguarde,
té aguas deste rio fugitivas?
Se tu viesses, Silvia, inda esta tarde
verias lá no mar nuves rosadas
por entre as quais o sol mais brando arde,
verias destas humidas moradas
sair as brancas ninfas saudosas
de mil alegres flores coroadas,
e qual de roxos lirios, qual de rosas
esmaltaria teu puro e crespo ouro,
tam ledas de te ver quanto invejosas.
E eu veria os olhos por que moiro,
veria esse coroado e alvo rosto,
da maior formosura o mor tesouro.
Se todo meu prazer, todo meu gosto
depende de ti só que vas fugindo,
não ves em qual estremo me tens posto?
Não ves que vai a magua consumindo
a vida em duvidosas esperanças?
Ah doudo Alcido! Silvia está-se rindo,
e tu de chamar Silvia inda não cansas!

FREI AGOSTINHO DA CRUZ

[Sidenote: 1540-1619]

_142. A Nosso Senhor_

Quando será, Senhor, que desatado
deste peso mortal convosco esteja,
e vendo esta alma em vos o que deseja
veja quanto de vos tem desejado?
Que inda que ser não pode coroado
quem valerosamente não peleja,
basta, por muito mais fraco que seja,
quererdes vos por mim ter pelejado.
Aqui se fortifica a confiança,
aqui se certifica meu desejo,
que quem muito deseja muito alcança;
e se pena me dá, se me faz pejo
o sentimento grave da tardança,
desejando acharei o que desejo.

_143. Descanso_

Tempo foi que pastava neste prado
bem fora de cuidar que poderia
tornar a ver-me nele inda algum dia
de tantos mil cuidados descuidado:
o Senhor que me trouxe a tal estado
quando castigos graves merecia,
dando-me muitos dias do que pedia,
para sempre jamais seja louvado!
Estas aguas correntes, estas flores,
estes bosques cobertos de verdura,
os passarinhos neles escondidos,
aqui lhe dem comigo mil louvores!
Sem fim o louve toda a criatura:
não sintam outra cousa meus sentidos!

FERNAM ALVAREZ DO ORIENTE

[Sidenote: 1540?-1595?]

_144. Amor e Morte_

Obrando amor, mas em meu dano forte,
só nele quis mostrar potencia rara,
em não querer que a mão do fado avara
um dia me outorgasse alegre sorte.
Da Parca dura assim temi que o corte
com a vida a fe da alma me acabara;
mas ah que é semrazão injusta e clara
que o que começa amor acaba a morte!
E como a pena que me traz cansado
tem feito na alma eterna eterno assento,
estou num triste mas seguro estado:
que se amor não der fim ao meu tormento,
nem fortuna remedio a meu cuidado,
nem morte mudará meu pensamento.

_145. Florimonte_

Armada de aspereza, minha estrela
a nova dor me leva e me encaminha,
mas se uma gloria vi perder-se asinha
foi por quem a perdi gloria perdê-la.
Sucede nova dor, nova querela
á liberdade que gosado tinha:
não sei remedio dar á magua minha,
e quem lh’ o pode dar não sabe dela.
Que alivio logo em tormento espero
se a que m’ o causa na alma não o sente
senam se o ve nos olhos com que o vejo?
Porem, ah doce amor, eu antes quero
passar convosco a vida descontente
que contente vivir sem meu desejo.

FRANCISCO GALVAM

[Sidenote: c. 1560-1635?]

_146. A Nosso Senhor_

Ó tu de puro amor, Deus, fonte pura,
Ó paternal bondade mais que humana,
Ó Deus, luz eterna e soberana,
Deus meu, nova e antiga formosura:
não pode haver sem ti cousa segura,
pois o seguro ser de ti só mana;
como está fora de si, como se engana
quem fora de ti bem algum procura!
Sem ti caminha vago o pensamento,
sem ti para mor mal é toda gloria,
sem ti coberto estou de escuridade;
mas em ti fixa está minha memoria,
em ti repousa meu entendimento,
em ti se satisfaz minha vontade.

ANONIMO

[Sidenote: 16th c.]

_147. Soneto em que cotejando o estado livre e namorado julga o segundo por milhor._

Ponho-me a contemplar na fantasia
quando me vi em mais ditoso estado,
se agora que me vejo namorado,
se quando deste amor livre vivia:
entam destes cuidados só fugia,
tendo por riso a vida com cuidados,
agora pesaroso do passado
tenho por gloria aquilo que temia.
Bem vejo que era vida deleitosa
aquela que passava sem temores
quando os gostos de amor tinha por vento,
mas vendo agora Silvia tam formosa
julgo as cousas presentes por milhores
e as antigas por sombra de tormento.

_148. Ao Rio Tejo_

Formoso Tejo meu, quam diferente
te vejo e vi, me ves agora e viste:
turvo te vejo a ti, tu a mim triste,
claro te vi eu ja, tu a mim contente;
a ti foi-te trocando a grossa enchente
a quem teu largo campo não resiste,
a mim trocou-me a vista em que consiste
o meu vivir contente ou descontente.
Ja que somos no mal participantes,
sejamo-lo no bem. Ó quem me dera
que fossemos em tudo semelhantes!
La virá entam a fresca primavera:
tu tornarás a ser quem eras d’ antes,
eu não sei se serei quem d’ antes era.

FRANCISCO RODRIGUEZ LOBO

[Sidenote: c. 1580-1622]

_149. Vilancete_

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura,
vai formosa e não segura.

A talha leva pedrada,
pucarinho de feição,
saia de cor de limão,
beatilha soqueixada.
Cantando de madrugada
pisa as flores na verdura,
vai formosa e não segura.

Leva na mão a rodilha
feita da sua toalha,
com uma sustenta a talha,
ergue com outra a fraldilha:
mostra os pes por maravilha
que a neve deixam escura,
vai formosa e não segura.

As flores por onde passa,
se o pe lhe acerta de pôr,
ficam de inveja sem cor
e de vergonha com graça:
qualquer pegada que faça
faz florecer a verdura,
vai formosa e não segura.

Não-na ver o sol lhe val
por não ter novo inimigo,
mas ela corre perigo
se na fonte se ve tal.
Descuidada deste mal
se vai ver na fonte pura,
vai formosa e não segura.

_150. Ja nace o belo dia_

Ja nace o belo dia,
principio do verão formoso e brando,
que com nova alegria
estam denunciando
as aves namoradas,
dos floridos raminhos penduradas,
Ja abre a bela Aurora
com nova luz as portas do Oriente
e mostra a linda Flora
o prado mais contente,
vestido de boninas
aljofradas de gotas cristalinas.
Ja o sol mais formoso
está ferindo as aguas prateadas,
e Zefiro queixoso
ora as mostra encrespadas
á vista dos penedos,
ora sobre elas move os arvoredos.
De reluzente area
se mostra mais formosa a rica praia,
cuja riba se arrea
do alamo e da faia,
do freixo e do salgueiro,
do ulmo, da aveleira e do loureiro.
Ja com rumor profundo
não soa o Lis nos montes seus vizinhos,
antes no claro fundo
mostra os alvos seixinhos
e os peixes que nas veas
deixam tremendo a sombra nas areas.
Ja sem nuvens medonhas
se mostra o ceo vestido de outras cores,
ja se ouvem as sanfonhas
e frautas dos pastores
que vão guiando o gado
pela fragosa serra e pelo prado.
Ja nas largas campinas
e nas verdes decidas dos outeiros
ao som das sanfoninas
cantam os ovelheiros,
em quanto os gados pacem
as mimosas ervinhas que renacem.
Sobre a tenra verdura
agora os cabritinhos vão saltando,
e sobre a fonte pura
passa a noite cantando
o rouxinol suave
com saudoso acento agudo e grave.
Diana mais formosa
sem ventos sobre as aguas aparece,
e faz que a noite airosa
tam clara resplandece
á vista das estrelas
que se envergonha o sol de inveja delas.
Tudo nesta mudança
tambem de novo cobra novo estado,
qual em sua esperança
e qual em seu cuidado
acha contentamento,
qual milhora na vida o pensamento.

_151. Endechas_

Sofrei, coração,
vosso sentimento,
vingai-vos dos olhos
que a culpa tiveram;
quanto milhor fora
enganar ao tempo
que buscar ventura
em gostos alheos!
Para que são bens
que acabam tam presto?
Para que é buscâ-los
quem sabe perdê-los?
Cuidados de longe
matam de mui perto,
que acorda a lembrança
contino o desejo;
amor tam constante
tam mal satisfeito,
fe tam mal pagada
ja agora quebremos:
seca a esperança
cansa o sofrimento,
fiz força atégora
mas ja não me atrevo.
Qualquer sombra van
engana o desejo,
e tudo são sombras,
porque amor é cego.
Ah quem nunca vira
por não ver tam cedo
quantos desenganos
vem sobre um receo.
Ai triste que canso
e não me arrependo
nem deixo meu mal
com quanto o pragueijo!
Gostos, alegrias,
glorias, passatempos,
se vos não possuo
tambem vos engeito:
mais quero meu mal
pelo bem que quero
que a vossos enganos
porque vos conheço;
quero de meus bens
o mal que me veio,
deixai-me sentî-lo
pois tambem vos deixo.

SOROR VIOLANTE DO CEO

[Sidenote: 1601-1693]

_152. Vilhancico_

Saudade minha,
quando vos veria?
Ides-me fugindo,
deixais-me penando,
vos partis triunfando,
eu fico sentindo.
Partis-me partindo
coração e vida;
saudade minha,
quando vos veria?
Quando meu cuidado
verei tam contente
que logre presente
quem choro apartado?
Ai que alegre estado
eu convosco tinha!
Saudade minha,
quando vos veria?
Quando minhas glorias
verei restauradas
sem as ter livradas
só nestas memorias?
Ai quantas vitorias
eu convosco tinha!
Saudade minha,
quando vos veria?
Quando o bem que aguardo
que vos segue amando
verei neste quando
que a ser logo tarda?
Mas se o ceo vos guarda
com tal companhia,
saudade minha
quando vos veria?

Comments

Log in to leave a comment.

The Oxford book of Portuguese verseChapter D: Manuel De Portugal (2)

0%22 min left in chapter